domingo, 26 de abril de 2020

O Riso dos Ignorantes





      O que é o cômico? Muitos filósofos se impuseram essa interrogação e forneceram incontáveis respostas a ela. Para Aristóteles, a comédia seria apenas “uma imitação de caracteres inferiores”, O que inspirou em Stendhal sua visão do cômico como a mera “convulsão física produzida pela visão imprevista de nossa superioridade sobre outra pessoa qualquer”. De fato, nesta definição reside parte do sentimento de superioridade estampado no rosto de quem ri de um palhaço, por exemplo. A presença do palhaço não inspira temor, e isso torna o riso mais fácil. O palhaço é o último sujeito, diante do qual, alguém se sentiria inferiorizado. Para Schopenhauer, o cômico nasce de “um desacordo lógico entre uma ideia e seu objeto”, enquanto para Freud, o cômico seria a “percepção súbita da significação sexual sobre a forma simbólica”. Kant, por sua vez via o riso e o cômico como “a súbita redução de uma expectativa a nada”. Reação que só seria alcançada quando grande expectativa por um fim quase certo é frustrado com um desfecho inesperado. Para mim, o cômico reside em tudo que é incomum; que desconcerta as pessoas por uma troca fortuita do que é convencional por algo fora do comum. É jocosa a nossos olhos um homem vestido com folhas de bananeiras, por ser incomum um homem se vestir com folha de bananeira. Porém, não seria cômico se todos se vestissem com folhas de bananeiras. Por esta razão, se um homem do século XIII se encontrasse com um do século XXI, um riria dos modos e vestes do outro. Portanto, aqueles que são objetos de nossas gargalhadas hoje, poderão não o ser amanhã, enquanto nós, com nossos costumes e crenças supostamente superiores poderemos ser objeto das gargalhadas das gerações futuras por rirmos de um gênio.
As grandes ideias possuem essa peculiaridade, elas são objetos de chacota dos que a não compreendem. Assim aconteceu com muitos gênios que em seus tempos, tiveram suas ideias e seus nomes ridicularizados. Embora, passados algum tempo, a época que os ridicularizou acabou por ser ridicularizada. Quando Edson apresentou a ideia de termos “luz elétrica” através de lâmpadas, a proposta suscitou muitas gargalhadas. Como seria possível algo que imitasse a luz do sol, ou iluminasse nossas noites? As velas não são boas o suficiente?” Uma nota de 1878 de um Comitê do Parlamento Britânico chegou a menosprezar tanto o povo americano por conta das ideias de Edson, que dizia em um trecho: “Essa ideia pode até ser boa o suficiente para nossos amigos que vivem do outro lado do atlântico, mas é indigna da atenção de homens práticos ou científicos". Curiosamente, Edson aplicou a mesma chacota de que fora alvo a Nicola Tesla, quando este apresentou sua proposta de "correntes alternadas". O mesmo ocorrera a Carlyle que, as vésperas da sangrenta revolução francesa, alertava seus confrades em um banquete sobre os perigos das ideias de Rousseau que estavam amplamente difundidas na sociedade francesa e fazia grande número de discípulos. Os alertas de Carlyle suscitou riso entre os descentes. Algum tempo depois, alguns dos que estavam naquele banquete estariam com as cabeças fincadas em postes.

    É próprio dos ignorantes rir do que não conhece. Para o ignorante tudo que foge ao seu campo de experiência e conhecimento não é digno de atenção. Esta postura se verifica nos povos mais primitivos como os sentineleses, mas também em indivíduos que vagam pelo mundo civilizado e são completamente conformados com o pouco conhecimento que dispõe e, com essa conformidade, se fecham a tudo que os confronta. Todavia, ridicularizar o gênio sem ouvi-lo pode nos acarretar danos irreparáveis e um destino cruel. Nossa época, que julgamos tão adiantada, poderá ser objeto no futuro da mesma chacota que hoje dedicamos à épocas pretéritas. Nada é tão certo quanto isso. Se outros tempos tiveram esta sorte, por que o nosso seria dispensado?

sábado, 25 de abril de 2020

Por que nossas leis não funcionam na prática?




            Teoricamente, o adolescente é a "vaca sagrada" do sistema jurídico brasileiro. Ao menos no papel. Ele não pode ser preso, mas internado, no máximo. Não pode sofrer tratamento cruel ou degradante; seja o menor ato que se aproxime disso, o autor da violação poderá ser punido com o máximo rigor da lei. Seu atendimento e reivindicações possuem certa proeminência. Sua proteção goza de prioridade absoluta. Tudo isso, ao menos na lei. No entanto, apesar de toda essa proteção legal, em 2007, na cidade de Abaetetuba (Pa), uma menina de 15 anos foi PRESA por pratica de pequeno furto. Foi colocada em uma cela masculina com cerca de 20 detentos, onde foi estuprada por 26 dias de forma continua. Isso sob a ciência e complacência da juiza local CLARICE MARIA DE ANDRADE, que ao final do ocorrido, teve como punição APOSENTADORIA COMPULSÓRIA. 
Algum tempo depois, em 2017, a opinião pública foi novamente sacudida por outro episódio igualmente escabroso envolvendo crianças. Em uma performance "artística" no Museu de Arte Moderna de São Paulo, o artista Wagner Schwarts, totalmente despido, interagia com crianças, que em algumas ocasiões o tocavam. O episódio grotesco suscitou ondas de protestos, enquanto o desembargador que avaliou o caso, não viu nada além de mera apresentação artística, e nas reações populares, uma grande "histeria". A apresentação poderia muito bem ser enquadrada como crime, por violar o art. 240 do ECA. No entanto, ficou por isso, até evaporar de nossa memória. Por outro lado, alguns anos antes, quando o menor Roberto Aparecido Lopes Cardoso, o champinha, matou a facada o estudante Felipe Caffé, e estuprou sua namorada por sete dias consecutivos, a degolando no último dia, todos os representantes dos direitos da criança e do adolescente entraram em ação e todos os seus direitos e privilégios foram devidamente aplicados, segundo todos os critérios do ECA.  

Em todo esses processos descritos foram violados, pelo menos, uns 10 direitos da criança e do adolescente e transgredidos uns 20 artigos do ECA e do CPB, o que acarretaria aos envolvidos, no mínimo a perda do cargo ou prisão por algumas décadas. Isso não aconteceu. 

Apesar dessas falhas gritantes de nosso sistema, há quem tenha a coragem de erguer a legislação brasileira para se opor a alguma espécie de violação de direitos? Há quem se fie na lei para fazer cumprir seu direito? No Brasil, infelizmente, as coisas não funcionam assim. Os próprios agentes da lei costumam desvirtuá-la a seu belprazer.
A legislação brasileira tem se provado um faz de conta inenarrável em sua história. Se tudo funcionasse como determina o papel, viveríamos no melhor dos mundos. Mas o problema não está nas leis. A má aplicação das leis é um poderoso argumento para a fragilidade de nossas instituições. As leis são inúteis quando não há um sistema que a faça cumprir.

Para entrarmos nos eixos, não precisamos de mais leis, mas de uma reestruturação completa de nossas principais instituições. Isso seria impensado dentro das posssibilidades legais, mas tudo indica que nos encaminhamos irremediavelmente para esta reestruturação completa, só não sabemos de que forma (cruenta ou incruenta) ela se processará e em que forma elas ficarão após o processo. Mas de uma forma ou de outra, teremos que passar por isso.
O que virá pela frente:
- Nova Constituinte?
- Dissolução de Instituições Fundamentais?
- Criação de novas instituições jurídicas?
- Guerra sangrenta de facções?
Tudo isso está no cardápio. Não é previsão, é prognóstico. Quanto ao texto inicial, apenas servi-me deste exemplo para ilustrar a fragilidade e falha de nossas instituições na aplicação das leis das quais deveriam ser guardiães.

terça-feira, 24 de março de 2020

A Crise de Criatividade na Modernidade



Alexander von Humboldt (pintura a óleo de Eduard Ender, 1856) Foi um dos mais fecundos autores da modernidade. Sua produção é quase incontavel



           A educação antiga, que resumidamente tratamos aqui, possui aspectos tão extraordinários que nos surpreende ainda mais ao compará-la com a pedagogia moderna. Seus maiores representantes: Aristóteles, Platão e Sto Tomás de Áquino, eram tomados por tal criatividade que só um milagre poderia nos explicar uma produção tão vasta e profunda.
       O maior dos gênios da antiguidade (Aristóteles), lançou as bases da Lógica, Dialética, Silogística, Metafísica, Filosofia, Política, Moral, Retórica, Poética, Física, Biologia, Botânica, História, Zoologia, Meteorologia, Astronomia, Geologia, Psicologia, Medicina, Economia, Ciências Humanas e a lista vai às alturas... A sua obra é gigantesca, contando-se mais de 600 que lhe são atribuídas. A seu mestre, Platão, foram atribuídas pouco mais de 30 obras, embora, se admita que a extensão desta produção seja mais vasta. Aos mestres da Patrística, a produção literária também impressiona. Ao maior deles, Santo Agostinho, são atribuídas 113 livros, 270 cartas e cerca de 500 sermões. E ao maior dos mestres medievais, Sto Tomás de Áquino, é atribuída uma obra quase incontável, com efeitos perenes no pensamento ocidental.

         Como fora possível aos antigos desenvolver uma vida tão prodigiosa e fecunda de estudos em uma época onde até o “papel” que se utilizava para imprimir o resultado dos estudos era escasso? Eis uma pergunta que permeia este estudo sobre a grande epifânia de sabedoria que se deu na era socrática, no auge da patrística e na era medieval, e misteriosamente arrefeceu nos tempos modernos. Há controvérsias, por certo, mas tudo deve ser feito em face da conclusão lógica de que hoje colhemos as conclusões de interrogações e descobertas que se iniciaram há muitos séculos. Será que teríamos a ciência que hoje vislumbramos sem os grandes mestres da antiguidade e da Idade Média?

      À medida que os tempos avançavam e se aproximava a tão estimada modernidade, as criações intelectuais diminuíram notavelmente. Um dos últimos exemplos de elevada fecundidade intelectual no século XX, se observou no escritor inglês Gilbert Keith Chesterton que produziu  mais de 100 livros, centenas de poemas, 200 pequenos contos, 4.000 ensaios. Além deste autor, poucos no século XX e XXI chegaram próximos a esta marca. E além da grande derrocada no número das criações literárias e filosóficas, diminuiu absurdamente a qualidade destas criações. O que estaria acontecendo com a genialidade humana?
     
      Alain nos dá uma pista para esta crise de criatividade: “O homem só conta com aquilo que ele consegue por si de acordo com o método severo, e os que recusam o método severo nunca valerão nada” (Considerações sobre a educação) Em outras, palavras, o autor francês quer nos dizer que o excesso de facilidades que dispomos na era tecnológica estagna a potência criativa. Alguns que chegaram ao ponto de renegar a capacidade de dedução lógica, exigirão de imediato uma prova mais concreta do que falo. Evidentemente, eles são incapaz de fazer um exame mais apurado da questão por mera observação ou negam essa possibilidade de conhecimento. Mas, pensamos, essas notas poderão ser objetos de reflexões mais profundas posteriormente. 

       Em suma é notável que o progresso parece conter este paradoxo, à medida que ele avança, mais os esforços reflexivos e calculistas do homem diminuem. Ou seja, o preço do progresso é um certo regresso do homem.
A calculadora nos dispensou da tarefa de calcular; os computadores dispensaram o conhecimento da gramática na escrita e até do esforço e acuidade na pesquisa; as máquinas fotográficas tornaram banal a pintura realista; as máquinas começaram a diminuir os esforços braçais do homem e tendem a diminuir qualquer esforço intelectual também. Mas, e depois? Quando houver uma máquina que não só calcule e escreva, mas pense e decida pelo homem? Seria esse o objetivo final do progresso: a regressão do homem e perda de sua autonomia para a máquina? Se ele já não sabe calcular porque uma máquina calcula por ele; não sabe escrever porque uma máquina escreve por ele... E quando não souber mais pensar porque uma máquina pensa por ele? Houve um tempo em que o homem calculava, escrevia e pensava a partir de seus próprios esforços, sem legar essas atividades à uma máquina. Por certo, neste tempo, o homem era um pouco mais racional. Todavia, não se entenda que estou negando o valor das máquinas, estou, simplesmente, questionando se os benefícios compensam as perdas.  


sábado, 29 de fevereiro de 2020

A Famigerada Indolência e Volúpia Brasileira


Caipira picando fumo (1893), Almeida Junior, Museu de Artes de São Paulo





            Julga-se, com justa razão, o Brasil um país privilegiado geograficamente. Porém, esta vantagem geográfica contrasta clamorosamente com uma grave desvantagem cultural em relação as outras nações. Curioso notar que certas regiões totalmente desfavorecidas pela geografia, arrasadas por guerras e toda espécie de calamidades naturais e carência de recursos produziram, e produzem, um extraordinário capital cultural e humano, enquanto o Brasil com todos os recursos que dispõe, permanece uma nulidade. Eis um poderoso exemplo que depõe em favor de uma velha teoria antropológica quase esquecida: a Teoria do Desafio-Resposta de Arnold Toynbee. Segundo este historiador inglês, um povo desafiado por um ambiente geográfico adverso produz respostas criativas para superá-lo. Por outro lado, uma nação que cresce dentro de ambiente favorável, tende a relaxar e estagnar sua capacidade criativa. Eis parte de uma boa explicação para o gigante adormecido que é o Brasil. Naturalmente, essa tese fora taxada como simplista, mas, embora simplista, ela possui certa fundamentação. Um paraíso tropical, pouco afligido pelo clima e por guerras, cujo povo se encerrou na mediocridade, como é o Brasil, deverá ter infinitos fatores que determinam seu fracasso. A este respeito, nosso filosofo maior expôs em termos igualmente simples uma verdade: "As grandes realizações humanas, provieram das grandes dificuldade; e as mais altas civilizações foram realizadas onde havia que vencer maior número de dificuldades" (Filosofia e História da Cultura)
Mas este cenário privilegiado em que se formou o brasileiro começou a mudar, especificamente em nossos tempos. O caos, é evidente, se instaura em nossa nação como nunca dantes. Devastada economicamente; assolada pela criminalidade; a mercê de líderes corruptos, o paraíso tropical se converteu em um cenário escabroso. Por outro lado, já notamos os primeiros lampejos de uma exuberante epifania de criatividade que promete levar nossa nação a uma condição mais digna. Se estiver certo, não exulte, pois, o crescimento cultural de uma nação aumenta junto com suas adversidades e à medida que ela se envolve em circunstâncias dramáticas.
***
            Os grandes estudiosos da formação brasileira, notaram em seus primórdios uma acentuada predisposição ao descaso e à preguiça. Herança indígena, dirão alguns como Roberto Campos. O Pe. José de Anchieta, que viu a fundação desta nação, observou com certa curiosidade a típica indisposição brasileira estampada na personalidade daqueles em que ele se comprometera a educar. Em 1586, o missionário jesuíta escrevia sobre o tipo de estudantes que encontrara em terras brasileiras: “Os estudantes neste país são poucos e sabem pouco; a própria natureza não ajuda porque é depressiva, indolente e melancólica; e todo o tempo é gasto em festas, canções e distrações”.
434 anos se passaram e a famigerada indolência brasileira unida a seu espírito folgazão permanece inalterável. Gilberto Freyre, também citando o Pe. Jesuíta, observa o mesmo espírito impregnado na alma brasileira. 
"O ambiente em que começou a vida brasileira –– escreveu o antropólogo pernambucano ––, foi de quase intoxicação sexual. O europeu saltava em terra escorregando em índia nua; os próprios padres da Companhia de Jesus precisavam descer com cuidado, senão atolavam o pé em carne (...) As mulheres eram as primeiras a se entregarem aos brancos, as mais ardentes indo esfregar-se nas pernas desses que supunham deuses. Davam-se aos europeus por um pente ou um caco de espelho. Las mujeres andan desnudas y no saben negar a ninguno mas aun allas mismas acometen y importunam los hombres hallandose con ellos en las redes; porque tienen por honra dormir com los Xianos", escrevia o Padre Anchieta". (Gilberto Freyre. Casa Grande e Senzala. 51° ed. São Paulo: Global Editora, 2006. p. 161)
Poderíamos dizer que nossa sociedade nasceu na volúpia, e nela se atolou. O que isso representa para uma nação? Fracasso, é a resposta mais óbvia. A licenciosidade sexual é o primeiro aspecto de uma sociedade imersa na selvageria ou prestes a imergir nela. Enquanto não adquirir um espírito moderado, o brasileiro continuará a preferir o carnaval a conquistar seu tão falado lugar no mundo.
Voltando ao autor que abriu esta reflexão e sua Teoria do Desafio-Resposta. Podemos dizer que ela, ainda parece uma das respostas mais óbvias para o fracasso nacional. O eugenista Auguste Sorel, fez uma observação muito pertinente a este respeito. Dizia ele: "Os climas quentes parecem aumentar a intensidade da vida sexual. Sob um sol ardente o homem se viriliza mais depressa e sente-se mais disposto aos excessos sexuais." (A Questão Sexual, 4º Ed. São Paulo: Companhia Editorial Nacional, 1929,  p. 331) De fato, é facilmente perceptível a diferença comportamental dos indivíduos habitantes das regiões mais frias para os das regiões tórridas. E isso, enquanto não for plenamente refutado, permanecerá como um indicio para a indolência e sensualidades dos tropicais, e sua relação direta com o fracasso nacional e sua preferência pelo transitório em detrimento do eterno.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Massacres de Setembro (1792)


Há exatos 227 anos, no ápice da Revolução Francesa, ocorria um dos episódios mais sombrios daquela Revolução, e menos comentados pelos livros de história. O assassinato sumário de milhares de padres e outras classes apontadas como inimigas da revolução. Episódios que ficariam conhecidos como "Massacres de Setembro".
À partir do 2 de setembro de 1792 os sans-cullote iniciaram as matanças que se seguiram até o dia 7 do mesmo mês.


segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Um assassino contumaz





    São de conhecimento publico os traços psicopáticos de Che Guevara. Todavia, há na personalidade do guerrilheiro argentino outros traços mais repugnantes que pouco foram mencionados. Um deles é sua aversão a higiene. Por conta desta desagradável característica, o guerrilheiro fora apelidado de Chancho (Porco). O que não lhe causara qualquer constrangimento, de modo que o próprio Che chegava a fazer uso do infame apelido em algumas de suas cartas. Em sua biografia oficial, escrita por Jon Lee Anderson, o biografo narra que em um momento dramático na vida de sua esposa Hilda, Che, totalmente alheio a tudo, desfrutava de "aventuras estimulantes" nas serras cubanas, "sem tomar banho, fumando charutos e matando". Inclusive, na mesma obra, o autor assevera que o primeiro sentimento que a esposa teve ao vê-lo pela primeira vez foi de repulsa por conta de sua falta de higiene. Mas, a sua sujeira exterior nem se aproximava de sua sujeira interiorChe era um homem profundamente obsceno. Em outro trecho de sua biografia, narra-se a chegada de uma bela ativista à fazenda onde os guerrilheiros estavam abrigados. Che Guevara ao vê-la, tece o "interessante" comentário: “Ela é uma grande admiradora do movimento, mas a mim parece que quer foder mais do que qualquer outra coisa.” (p. 290)        

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Embora a face monstruosa do guerrilheiro comunista tenha sido encoberta por tanto tempo pela poderosa máquina de propaganda comunista; seu rosto estampe camisetas como um símbolo de liberdade e idealismo; sua personalidade fora sacrilegamente comparada a de Cristo por frades apostatas no Brasil; e seu nome seja evocado com reverência em círculos universitários, poucos, hoje em dia ainda acreditam nessa mitificação do guerrilheiroNem mesmo um de seus devotos mais fervorosos, como o foi Jon Lee Anderson, esconderam os traços psicopáticos do argentino. Quando os guerrilheiros chegaram ao poder em Cuba, a fama de sanguinário de Che Guevara tornara-se tão notória, que um clima de verdadeiro terror tomou conta de todos. Em um trecho da supracitada biografia, Anderson narra o seguinte episódio: "Em Malecón, Havana, Che, reconhecidamente mau motorista, bateu na traseira de outro carro. A reação do motorista foi típica: desceu do automóvel xingando a mãe e o pai de quem batera no seu carro. Mas quando viu que era Che, começou a desculpar-se acovardado, e sua expressão de olhos esbugalhados de fúria mudou para uma fisionomia beatifica. Ao que consta, o homem suspirou: "Che, comandante! Que honra para mim ter meu carro abalroado por você!". Depois, acariciando a mossa, anunciou que nunca mandaria desamassar, preservando-a como uma recordação amorosa do seu encontro pessoa com Che Guevara".

A sede de sangue do guerrilheiro fora confessada por ele mesmo em atos e palavras. Em um trecho de sua biografia encontramos este relato sucinto: "Quando regressou a Lima, Hilda encontrou uma carta de Ernesto à sua espera. Estava datada de 28 de janeiro de 1957. 'Querida vieja, aqui na selva cubana, vivo e cm sede de sangue". 
(Carta a Hilda Guevara, 28 de janeiro de 1957 apud ANDERSON, Jon Lee. Che Guevara: uma biográfia, Ed: Objetiva, 1997, p. 280) Segundo Luís Ortega, que conheceu Che pessoalmente, em seu livro Yo soy el Che, narra que o guerrilheiro argentino sentenciou a morte 1.892 pessoas.  Nas cartas dirigidas a sua primeira esposa, Célia, Che narrava fria e entusiasmadamente as execuções que praticava na guerrilha. 

Lee Anderson ainda revela uma personalidade paranóica em Che, que via em todos, potenciais inimigos e traidores. Em um trecho de seu diário, Che aconselha a execução de um suspeito de traição sem qualquer julgamento prévio: “É muito difícil saber a verdade sobre o comportamento de El Gallego, mas para mim trata-se simplesmente de uma deserção frustrada (…) Aconselhei que ele fosse executado ali mesmo”. (p. 285)
Outro conhecido das narrativas sobre o guerrilheiro chama-se Eutimio Guerra, acusado de traição, cujo executor ninguém identificara até o dia em que vem a tona o diário de Che:
“Era uma situação incomoda para as pessoas e para [Eutimio], escreveu Che Guevara, de modo que acabei com o problema dando-lhe um tiro com uma pistola calibre 32 no lado direito do crânio, com o orifício de saída no lobo temporal direito. Ele arquejou um pouco e estava morto.”
Impressionado com a frieza de seu ídolo, Jon Lee Anderson chega a confessar: “A narrativa de Che tem tanto de horripilante quanto de reveladora sobre sua personalidade” (p. 288)
Che Guevara é a prova viva de uma frase comum nos meios esquerdistas: “Em nome da revolução todos os crimes são justificáveis”. E isso era defendida com tal tenacidade, que aqueles que ousassem discordar de Che e seus ideais, corriam sério risco de vida. Jon Lee Anderson nos fornece mostras sucintas da loucura de Che. Nicolás Quintana, um dos contribuidores da revolução cubana, passou por apuros diante de Che. Após este perder o amigo fuzilado pelas forças castristas por distribuir panfletos anticomunistas, Quintana foi ver Che Guevara para se queixar. “Seria um encontro arrasador”, observa Anderson. “Recordou Quintana: Che me disse: ‘Olhe, as revoluções são feias porém necessárias, e parte desse processo revolucionário é a injustiça a serviço da justiça futura.’ Jamais conseguiria esquecer essa frase. Repliquei que isso era a Utopia de Thomas More. Disse que nós [a humanidade] tínhamos ficado na merda por causa dessa história durante muito tempo, por acreditarmos que conseguiríamos alguma coisa, não agora, mas no futuro. Che ficou olhando para mim durante muito tempo e falou: ‘Bem. É assim. Você não acredita no futuro da revolução?’. Eu lhe disse que não acreditava em nada que fosse baseado na injustiça”. Che então lhe perguntou: “Mesmo que a injustiça seja salutar?” Ao que Quintana retrucou: “Não creio que, para os que morrem, você possa falar de injustiça salutar.” A reação de Che foi imediata: “Você tem que sair de Cuba. Tem três opções: vai embora de cuba e não há problema nenhum comigo, ou 30 anos [na prisão] no futuro próximo, ou o pelotão de fuzilamento”. (p. 529) Divergentes não eram tolerados! Marca comum de todos os fieis devotos do credo comunista. 


domingo, 13 de outubro de 2019

Um sinal de decadência: a deificação do jovem



Thomas Le Clear, Young America




            É próprio dos jovens imitar os velhos, dizia Ortega y Gasset, e isso fora comum em todos os tempos, com exceção dos nossos, onde o velho quer ser jovem e o jovem quer ser forever Young (jovem pra sempre). A maturidade era uma das máximas ambições de todo jovem no passado, e a juventude algo a se abandonar o mais rápido possível. Nada era tão ofensivo a alguém do que o menosprezo por razão de idade. S. Paulo faz referência a esta cultura quando em carta a um jovem presbítero, recomenda a todos que não o menosprezem pela pouca idade. “Na minha infância, dizia Nelson Rodrigues, o jovem tinha vergonha de o ser”. Nos velhos parlamentos europeus, a tradição das perucas empoadas era uma outra forma de passar ao público a imagem de sabedoria e seriedade que o jovem não gozava; alguns chegavam a deitar talco nos cabelos para imitar fios grisalhos. Todos queriam antecipar a ancianidade, como modo de ser levado a sério. Ser jovem fora causa de vergonha em todos os séculos... Menos no nosso.


Jovem do século XVII com sua peruca empoada


A modernidade inaugurou algo completamente novo: o velho sente vergonha de ser velho, e passa a imitar os atributos do jovem: portar-se, vestir-se e falar como jovem. Todos querem ser jovens! Os jovens começam a dirigir o mundo; a dar conselhos nos parlamentos, e o pior, a serem ouvidos e obedecidos pelos adultos. Assim os jovens começaram a tomar o lugar que a própria natureza legou aos anciãos. Vivemos a época em que o povo se encanta mais com um ancião jogando bola de gude com as crianças, do que com um jovem tentando ser adulto.
Sabedoria e experiência são valores complementares, não podendo existir uma sem a outra. Não espere de um indivíduo com pouca vivencia discutir com a mesma sabedoria de quem já viveu e enfrentou certos desafios incomuns a este. Apesar dos inegáveis e admiráveis atributos da juventude, um fato histórico nos resta: as sociedades mais poderosas que já tivemos noticia, viviam sob o comando de anciãos e as sociedades que confiaram seu destino na mão de jovens declinaram.
Todavia, se há uma grande ascensão dos jovens a altos postos de comando, tal se deve por uma certa inercia e insensatez dos homens maduros. É difícil em nossa geração encontrar homens da terceira geração dotados da característica sabedoria dos anciãos. Em geral, os idosos estão tão idiotizados quanto os jovens, e numa reviravolta como esta, é natural que outras faixas etárias assumam o posto que por natureza cabia a honorável classe dos anciãos.
Faço este controverso exame de aferimento de uma sociedade: para se saber como vai uma sociedade, basta interrogar-se sobre quem está comandando e quem está obedecendo. Se as mulheres comandam, significa que os homens são fracos; se os jovens estão no poder, significa que os anciãos não são sábios.

REPENSANDO A FAMIGERADA POLARIZAÇÃO

  Tirinha de Caran D'Arche T enho fartas razões para crer que "a unidade em questão política é uma exceção. A polarização é a regra...