sábado, 14 de julho de 2018

A Fabulosa Educação Jesuíta

         por
    -------------------- ERICK FERREIRA -----------------
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      Durante toda a história da Educação, poucos alcançaram tão grandes êxitos na missão educativa quanto os jesuítas. Foram mais de 200 anos de aplicação intensa de seus métodos com resultados extraordinários. Sobre este sucesso, escreveu o renomado historiador da educação Paul Monroe: "Incontestável é o mérito das escolas jesuítas, que foram as instituições educativas de maior êxito por 200 anos e que educaram muitos dos líderes da Europa neste período" (História da Educação, 1952, p. 206) e Gilbert Highet em seu célebre "A arte de ensinar", enalteceu, igualmente, os feitos jesuíticos: "O sucesso da educação jesuíta é provado por seus graduados. Ela produziu uma longa lista de sábios e oradores, escritores, filósofos e cientistas. E ainda que tivesse produzido nada além de jesuítas, ela não seria menos importante. Seu valor é o que prova o valor de seus princípios, por ser capaz de desenvolver um largo número de homens dotados dos mais vastos e diversos talentos" (The art of teaching. New York: Vintage Books, 1955. p. 198-199) O objetivo da Educação Jesuíta, conforme é apresentado na Ratio Studiorum (Plano e Organizacão dos Estudos Jesuítas) era guiar os homens "ao conhecimento e amor de nosso Criador" (Ratio, 1, 1) Algo aparentemente simples, que se confundiria com o programa seguido por qualquer escola catequética. No entanto, isso era feito através de uma exuberante formação humanística acompanhada de sólidos fundamentos cristãos. E isso dentro de um rigoroso método disciplinar, semelhante ao das ordens militares. E é, talvez, nesta rígida disciplina que reside parte da receita de sucesso dessa instituição. É fora de dúvida que para se atingir grandes resultados na vida de estudos, é imprescindível a disciplina e o sacrifício. E isso, os jesuítas souberam usar em proveito de seus estudantes.

   As escolas jesuítas possuíam uma disciplina e um chamado especial ao sacrifício em nome do progresso intelectual fora do comum. E se lhes vem a mente que tal ordem e disciplina era obtida mediante castigos corporais, engana-se profundamente. As escolas jesuítas foram pioneiras na eliminação de castigos corporais no processo de aprendizagem; algo que era tão comum nos métodos educacionais da época. O controle e a disciplina eram obtidos através de um fabuloso sistema de recompensa. Os estudantes ficavam tão entusiasmados com as posições e os prêmios adquiridos pelo desempenho acadêmico que se impunham uma rígida disciplina e sacrifício pelo progresso nos estudos. O mesmo rigor se verificava entre os mestres e diretores. Estes eram regidos por um rigoroso e eficaz sistema de controle, hierarquicamente disposto. Cada escola era administrada por um reitor que devia prestar contas periodicamente ao superior provincial de suas atividades e de seus subordinados. E abaixo do reitor, estavam os "prefeitos de estudos", que auxiliavam o reitor na administração e supervisão da escola, e abaixo deste, os "inspetores de estudos" que supervisionavam o desempenho dos professores. Esta constante vigilância de um sobre o outro cooperava para que cada funcionário desempenhasse com o máximo rigor suas funções.
    Entre os alunos, a mesma rigidez organizacional se verificava, com sua própria hierarquia. Toda esta disciplina cooperava não somente para os resultados fabulosos da educação jesuítica, mas também, para uma ordem imperturbável nas escolas. Os alunos aprendiam antes a amar seus mestres, do que a temê-los; mesmo quando estes estavam longe de seu campo visual.
    Por outro lado, uma das acusações mais frequentes que se levantou contra a educação jesuíta é a de que esta gerava homens totalmente submissos à autoridade da Igreja. No entanto, ignora-se que os homens mais irrequietos e transgressores da história passaram pela educação jesuíta: Voltaire, Heidegger, Descartes, Montesquieu, Robespierre, Fidel Castro, são alguns destes exemplos. Mas, além de gênios rebeldes, os jesuítas formaram os mais notáveis cientistas, apaixonados pela verdade, como Lemaître, Boscovitch; gênios da literatura como Molière, Tasso, Goldone, Calderon de la Barca, e a lista segue às alturas. Se uma educação acusada de ser repressiva e dogmática gerou tais gênios, por que as pedagogias modernas, que se pejam de libertadoras, só geram homens dependentes de suas ideologias, e nada além disso?

       Os jesuítas obtiveram os mais surpreendentes resultados na arte de ensinar, até serem interrompidos tragicamente, em 1773, com a supressão da ordem pelo Papa Clemente XIV. Esta foi uma das maiores catástrofes educacionais da história, senão, a maior. Mais de 500 escolas foram fechadas na Europa, e outras 100 na América Hispânica e na Índia. Se isto não houvesse ocorrido quantos gênios não teriam sido formados pelos jesuítas?

sábado, 23 de junho de 2018

O maior discípulo de Marx



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Esqueça Lenin, Foucault, Derrida, Lacan, et caterva, e lembre-se de Antonio Gramsci. Este pouco mencionado ideólogo italiano é, por certo, o maior pensador marxista da história. E, de certo modo, até maior que Marx.

Sozinho, o italiano reescreveu as teorias marxistas e alcançou o coração de nossa civilização. É nele que você encontrará a explicação para a hegemonia marxista de décadas em nossas universidades, escolas, imprensa, sindicatos e seminários católicos (especialmente os jesuítas)
Falecido há 79 anos, Gramsci passou seus últimos dias de vida no cárcere, o que lhe propiciou o tempo e a condição necessária para desenvolver suas ideias. O resultado desse período foram seus volumosos "Cadernos do Cárcere", onde o ideólogo italiano repensa a sociedade e a própria teoria marxista a partir de análises minuciosas da organização eclesiástica e da política maquiavélica.
Enquanto Marx via na subversão das bases econômicas de nossa sociedade o meio fundamental para modificá-la; Gramsci via nas bases culturais de nossa civilização o cerne de todos os problemas que Marx combatia. A arte, a literatura, a educação, a religião eram elementos tão importantes para a conquista do poder quanto o capital.
Assim, Gramsci reordenava em suas bases a tese marxista que via a economia (infra-estrutura) como causa da cultura e da civilização (super-estrutura). Gramsci acertara em cheio seu alvo: não era a economia que gerava a cultura, mas o inverso. Portanto, se os comunistas quisessem chegar ao poder, deveriam conquistar, primeiro, os meios de produção cultural, para depois conquistar os meios de produção do capital.
Convencidos desta tese, marxistas de todo os naipes se empenharam ardorosamente nesta tarefa: a conquista dos meios de produção cultural, ou seja: as universidades, imprensa, editoras, igrejas; enfim, todas as instituições importantes de produção e manipulação da opinião publica.


Quase 80 anos após a morte de Gramsci, suas lições foram muito bem assimilados por seus asseclas, que hoje desfrutam de controle quase total dos meios de produção cultural. A imprensa, as universidades, editoras, escolas, sindicatos e até as conferências episcopais tornaram-se caixa de ressonância do marxismo. O que os gramscistas não esperavam era que as mesmas lições que usaram para chegar ao poder, seriam usadas um dia contra eles.

Entrevista com Carlos Nougué


O professor Carlos Nougué atendeu ao nosso convite e concedeu uma breve entrevista ao Grupo de Estudos Alétheia. A ele nosso muito obrigado.

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Nascido no Rio de Janeiro no dia 17 de março de 1952, Carlos Nougué tem se destacado nos círculos intelectuais católicos e conservadores como um dos símbolos de um exuberante florescimento intelectual que tem se verificado nestas últimas décadas no Brasil.
Sua tradução de Dom Quixote de La Macha (de Miguel de Cervantes) lhe rendeu muitos prêmios. Além de Cervantes, Nougué já traduziu Cícero, Sto Agostinho, Sto Tomás de Áquino, G. K Chesterton, Louis Lavelle, Xavier Zubiri, e ainda é autor de inúmeros romances, e uma "Suma Gramatical da Língua Portuguesa" que tem sido um sucesso editorial. Nougué já se prepara para o lançamento de mais uma obra monumental, "Das artes do belo", cujo lançamento está previsto para julho deste ano pelas Edições Santo Tomás. E ainda estão previstas para o futuro, as seguintes obras: Suma Retórica, Da Necessidade da Física Geral Aristotélico-tomista, Suma Dialética, Da Figura do Silogismo, O Tratado dos Universais, entre outras
Além de ser um respeitado tradutor de inglês, espanhol, latim e francês, um profícuo escritor e um eloquente conferencista, Carlos Nougué tem sido um dos máximos representantes de um novo centro cultural que vem assumindo seu posto no cenário brasileiro, o Centro Dom Bosco, que de forma inevitável, nos evoca a lembrança dos áureos tempos de glória de outro centro cultural que um dia despontou na capital fluminense, e que também tinha a sua frente um respeitado intelectual, refiro-me ao Centro Dom Vital, que na figura de Gustavo Corçao tinha seu grande bastião.

ENTREVISTA

O BRASIL PERMANECEU POR DÉCADAS NUMA "INEXPLICÁVEL" CRISE INTELECTUAL, DE MODO A TER COMO MÁXIMA REFERÊNCIA ACADÊMICA NO EXTERIOR UM AUTOR DE CAPACIDADE MAIS QUE DUVIDOSA (Paulo Freire). ALGUNS, DE FORMA UM TANTO LIMITADA, VEEM A ORIGEM DESTA CRISE NOS ANOS 60, COM A ESTARRECEDORA TOMADA DOS MEIOS DE PRODUÇÃO CULTURAL PELO MARXISMO. NA SUA OPINIÃO, A GRANDE CRISE INTELECTUAL BRASILEIRA QUE LEGOU AOS NOSSOS ESTUDANTES AS PIORES COLOCAÇÕES NOS TESTES INTERNACIONAIS SE DEVE A HEGEMONIA MARXISTA NAS ESCOLAS E UNIVERSIDADES?

 CARLOS NOUGUÉ: Sem dúvida alguma, tal crise se deve à revolução. Mas a revolução é tripla: é antes de tudo liberal; depois comunista; por fim marcusiana (ou seja, o ápice da Escola de Frankfurt, que no Brasil se consolidou com Foucault). Todas desviam a educação de seu fim, a Verdade, embora a forma marcusiana seja a que mais radicalmente o faça: a liberal afasta-se de Cristo e da Igreja; a comunista, de Deus; a marcusiana, da própria natureza humana. Mas a decadência do ensino começou com a decadência da Escolástica no século XIV e XV e aprofundou-se grandemente com o tcheco Comenius (século XVI-XVII) e com o fim da Ratio Studiorum dos jesuítas. – Como se vê, considero internacional e multissecular a crise no ensino, ainda que sem dúvida no Brasil tenha chegado a níveis estupefacientes.

NOTA-SE EM SUAS CONFERÊNCIAS E OBRAS UMA GRANDE PREOCUPAÇÃO COM A QUESTÃO ESTÉTICA. POR CERTO, UMA PREOCUPAÇÃO JUSTIFICÁVEL POR CONTA DO INEXPLICÁVEL CULTO A FEIURA QUE SE VERIFICA EM NOSSA SOCIEDADE. NA SUA OPINIÃO, QUAL A CONSEQUÊNCIA DESTE DESPREZO À BELEZA NA REALIDADE SOCIAL BRASILEIRA? E COMO EDUCAR ESTETICAMENTE UM POVO QUE ABSORVEU POR DÉCADAS UMA SUBCULTURA DAS MAIS DEGRADANTES? 

CARLOS NOUGUÉ: O desprezo da beleza, se, uma vez mais, alcança níveis horrendos no Brasil, é no entanto também internacional e de origem também antiga. No século XV-XVI, pretendeu-se com o neopaganismo disjungir o bem e o belo. O barroco voltou a uni-los. Mas o neoclassicismo tornou a disjungi-los, disjunção que aumentou tanto no romantismo que então se tocou as raias do feio, o qual dominaria a mal chamada “arte” moderna (tanto na música como na pintura, etc.). É que o bem e o belo são como duas faces do mesmo. 

NÃO HÁ COMO JULGAR O PENSAMENTO DE UM AUTOR SEM CONHECER SUAS FONTES DE INSPIRAÇÃO. A ESTE RESPEITO GOSTARIAMOS DE SABER QUAIS AUTORES INFLUENCIARAM SEU PENSAMENTO E QUAIS DELES O SR. CONSIDERA ESSENCIAIS PARA A FORMAÇÃO INTELECTUAL DE SEUS LEITORES E ADMIRADORES?

CARLOS NOUGUÉ: Sem dúvida alguma, Aristóteles e Tomás de Aquino.

ALARDEIA-SE ENTRE GRUPOS CONSERVADORES A NECESSIDADE DE UMA RESTAURAÇÃO CULTURAL DO BRASIL. E MUITOS JÁ O RECONHECEM COMO UM DOS SÍMBOLOS DESTA RESTAURAÇÃO CULTURAL. O SR. VÊ SUA OBRA INSERIDA DENTRO DESTE MOVIMENTO E COMO O SR. ENCARA ESTE MOVIMENTO QUE APREGOA ESTA RESTAURAÇÃO CULTURAL? 

CARLOS NOUGUÉ: Sim, considero-me inserido nele, mas como católico. Estou estreitamente vinculado ao Centro Dom Bosco (RJ) e aos demais centros e institutos católicos que vêm surgindo no Brasil, justamente porque estou certo de que qualquer restauração civilizacional que se dê entre nós e no mundo ou será cristã e sólida, ou será efêmera e frágil.

O SR. COMO PROFUNDO CONHECEDOR DO CATOLICISMO, ASSISTIU, COMO MUITOS BRASILEIROS (COM MAIS DE 50 ANOS) UM RÁPIDO DESAPARECIMENTO DO CATOLICISMO NA SOCIEDADE BRASILEIRA E EM SEU LUGAR VIU-SE PROSPERAR UMA INFINIDADE DE SEITAS, ESPECIALMENTE AS PENTECOSTAIS.
A QUE SE DEVE TAL ENFRAQUECIMENTO DA FÉ CATÓLICA EM UM PAÍS CUJO CATOLICISMO JÁ CHEGOU A MAIS DE 90% DE SUA POPULAÇÃO?

CARLOS NOUGUÉ: Uma vez mais, a origem disto é muito antiga. Começa, no fim do século XIII, com a condenação da obra de Tomás de Aquino pelo bispo Étienne Tempier. Aprofunda-se com a hegemonia do nominalismo, com a consequente decadência da Escolástica, com o racionalismo decorrente e com o divórcio entre filosofia e ciência. E, com efeito, como a fé é virtude teologal vertida no vaso da razão, se este vaso está fendido por más doutrinas, a fé tende a escorrer por suas fendas. Foi o que se deu progressivamente (ainda que com momentos de recuperação) de Lutero aos dias de hoje, incluindo a crise evidente no seio da própria Igreja. 

QUAL O MAIOR INIMIGO DO CATOLICISMO NA ATUALIDADE: O PROTESTANTISMO, O MARXISMO OU A APOSTÁSIA DO CLERO?

CARLOS NOUGUÉ: Sem dúvida alguma, a apostasia dentro da Igreja de parte do clero e de parte dos leigos.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

A escola e a era da preguiça

por Erick Ferreira

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John Millar Watt, Plato in the garden of academos, 1966


                        A escola foi concebida em suas origens como o “lugar do ócio” [1], onde os teorétikos tinham seu oásis de contemplação e criação intelectual. Este sentido etimológico da escola – intimamente ligado ao estilo de vida dos sábios da antiguidade [2] que tomaram o ócio como condictio sine qua non para a criação intelectual –, se perdeu totalmente em nossos tempos. Atualmente, o ócio, para a maioria das pessoas possui o mesmo sentido de preguiça. No entanto, em uma análise mais apurada as duas palavras se distinguem. Ócio é estar livre de preocupações desnecessárias, com a mente livre para a reflexão, enquanto a preguiça, refere-se a recusa de trabalhos físicos ou intelectuais; estar na total inércia. Portanto, o ócio a que me refiro aqui é antes uma necessidade do homem interior: estar tranquilo e despreocupado para que o intelecto possa alcançar alturas mais sublimes. Aquele mesmo ócio a que faz referência o próprio Cristo quando diz a seus apóstolos: “Considerai os lírios do campo, não trabalham, nem tecem, e no entanto, eu vos asseguro que nem Salomão em toda sua glória se vestiu como um deles” (Lucas 12, 27). O mesmo ócio que era decantado por Virgílio em suas éclogas: O Meliboe, deus nobis hoec otia fecit (Ó Melibo, um deus nos deu esta ociosidade) [3], e que dá origem a palavra: “neg-ócio”; que por sua vez é a grande engrenagem da economia. Por certo este sentido, há tempos se perdeu, e será missão hercúlea restaurá-lo.
                     De certo modo, foi para dar sentido à vida ociosa que nasceu a escola. Nela, os sábios se reuniam e produziam seu trabalho teorétiko – que para tal, exigia o ócio –, e algum tempo depois; nela (a escola), as crianças aprendiam a tirar proveito do ócio que dispunham em grau especial. Já que para o crescimento intelectual é imprescindível que a mente esteja livre de preocupações inúteis. O homem deve aprender a trabalhar primeiro com o cérebro, para depois trabalhar com as mãos ou, a pensar primeiro com as mãos, – como metaforicamente dizia Corção – para depois pensar com a cabeça.

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         É bem verdade que a ociosidade é uma condição necessária para a criação intelectual, e até mesmo, para o despontar da imprescindível inspiração que gera os grandes clássicos da humanidade, e é também verdade, que a preguiça – o estar livre de trabalhos físicos e intelectuais, como há pouco definimos –, é um grande empecilho para a vida intelectual, pois não raras vezes, dela costuma nascer as mais insanas inspirações que uma mente desorientada costuma engendrar. Um cérebro preguiçoso é, por certo, um maquinador de vícios e virtudes.  “Causa de pecados carnais e delitos de sangue”, como dizia Comênius.
                        Ao lembrarmos que a escola, em tempos remotos, deu sentido ao ócio e assim formou índoles criativas; adentramos, assim, em um grave conflito de nossa modernidade: “O que o homem fará de uma vida cada vez mais ociosa?” Engendrará através dela vícios ou virtudes? O educador italiano Domenico de Masi em Il futuro del lavoro  nos fornece um quadro interessante sobre esta questão e nos conduz a um ponto candente:
 No Primeiro Mundo, --- diz ele --- trabalham mais ou menos 20% da população. No Terceiro Mundo, os trabalhadores não chegam a dez por cento. Em suma, dos quase seis bilhões de habitantes do planeta, os considerados trabalhadores não chegam a um bilhão. Os outros cinco bilhões são crianças, velhos, pensionistas e aposentados, donas de casa que cuidam da família, jovens que estudam e pessoas que vivem em busca do que fazer para sobreviver – se pobres – ou tentando matar o tempo – se herdeiros de fortunas”.

Os dados apresentados por De Massi podem ser objetos de questionamentos, mas há que se concordar que o número de desocupados, por certo, ainda supera o de trabalhadores. E com uma classe ociosa cada vez maior, uma grande multidão vive entendiada, enquanto outra, vive extenuada a sustentá-la.
                        A escola, o eterno lugar do ócio, já não é capaz de tornar o ócio das crianças e dos adolescentes algo fecundo e útil. E nesta perspectiva, nasce uma grave preocupação: se o homem não dirigir suas aspirações interiores para o bem, elas se voltarão espontaneamente ao mal.
                        O progresso científico nos reserva tempos cada vez mais ociosos, e por conseguinte, indivíduos mais entendiados. Desta constatação, Domenico de Masi formulou a famosa expressão: “Ócio criativo”; que tende a ser uma máxima corrente de nossa época e para outros: a “partícula de soma” [4] de nossos dias. Por outro lado, se uma vasta classe ociosa se forma nas grandes metrópoles, ainda impera, em certa minoria, uma classe trabalhadora, que tende a diminuir com o avançar das mudanças e com a alienação que suas condições os coloca em face da vasta classe ociosa. Outra tendência observada, é que o conceito de trabalho tende a ser cada vez mais “pejorativado” pela maioria ociosa.
                        Embora todos estejam convencidos da necessidade imprescindível do trabalho físico, ele ainda carrega consigo sentido de encargo penoso, e na prática, é o exercício de tarefas dissipadoras, que priva a muitos da atitude mais criativa e transformadora do homem: a reflexão e o senso crítico, como gostam de acrescentar inoportunamente os marxistas. Excluindo a classe trabalhadora da “partícula redentora” de Domenico de Masi. Pensamos: como um trabalhador extenuado e dissipado por suas longas horas de trabalho poderá ter uma fecunda vida intelectual? Se esta classe não se informa, torna-se joguete da classe ociosa e bem informada a que sustenta com seu suor.
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                        Em nossos tempos já se especula o dia em que o trabalho manual seja exercido exclusivamente por máquinas, onde grandes trabalhos sejam executados em instantes com o simples toque de um botão; e neste cenário previsível, os homens desempenhariam somente atividades intelectuais, – se é que estas também não serão realizadas pelas máquinas. Já no início do século XX, o escritor inglês G. K Chesterton, observava esta estranha tendência da modernidade em seu livro Ortodoxia. Dizia ele:

“Existe o costume de nos queixarmos da correria e do árduo trabalho de nossa época. Mas na verdade, a marca principal de nossa época é uma profunda preguiça e fadiga. O fato é que a verdadeira preguiça é a causa da correria. Tomemos um caso totalmente externo: as ruas são barulhentas, cheias de táxis e carros. Mas isso não se deve à atividade humana, mas sim ao repouso. Haveria menos correria se houvesse maior atividade, se as pessoas simplesmente andassem a pé. O mundo seria mais silencioso se houvesse mais trabalho”.

De fato, esta falsa correria, na verdade é a consequência natural da inercia de homens sentados comodamente dirigindo suas máquinas, que aos poucos passou a cumprir muitas de suas funções orgânicas. A inércia parece e o desejo de se entregar a ela parece ser a força motriz do progresso. Nunca o homem desfrutou de tantas facilidades e tão pouca necessidade de força física e intelectual. Até nas guerras, já são previstas, a substituição de homens por máquinas.
                        São previsões – amedrontadoras para alguns, encantadoras para outros – que o progresso nos reserva. É o destino fatal da humanidade, assegura De Masi. E já que estamos na iminência de ver em breve a concretização de tais episódios, devemos pensar também, em como o homem viverá após a superação de grandes esforços braçais? E o que fará com uma vida que lhes exigirá poucos sacrifícios? E o que restará do homem quando a maioria de suas atividades for realizada por máquinas? Nos preparemos para pensar no advento da era da preguiça e nas suas consequências, que podem ser trágicas.

Notas:
1. do grego, σχολή, que vai dar origem ao termo latino schola, que por sua vez, vai gerar o nosso aportuguesa escola.
2. cf. Aristóteles, Metafísica, Livro I, cap. I
3. Virgilio, Écloga, I, VI
4. Comprimido que causava sensações agradáveis nos personagens da obra fictícia Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley

quarta-feira, 30 de maio de 2018

O que houve com a Irlanda Católica?




                  A reputação católica da Irlanda, há algum tempo, foi pelo ralo. Arrasada por graves escândalos sexuais e de outras espécies protagonizados por sacerdotes e religiosos que levou ao total descrédito o catolicismo no país, a voz da Igreja tornou-se a última a ser ouvida nos plebiscitos populares, deixando espaço aberto para o avanço de todas as pautas anticristãs que vinham sendo impostas a algum tempo por organismos estrangeiros como ONU e União Européia.
O que aconteceu com este país que em outros tempos fora chamado  de “Ilha dos Santos”, e até o início do século passado transpirava catolicismo por todos os poros? Como um dos cleros mais admirados do mundo tornou-se o mais corrupto no século atual?

Em 2010 o Papa Bento XVI escrevia uma lamuriosa carta aos católicos da Irlanda onde deplorava profundamente o lamentável estado a que chegou o catolicismo na Irlanda.
Não posso deixar de partilhar o pavor e a sensação de traição que muitos de vós experimentastes ao tomar conhecimento destes atos pecaminosos e criminais e do modo como as autoridades da Igreja na Irlanda os enfrentaram (Bento XVI, em carta aos carta aos católcios da Irlanda do dia 19 de março de 2010)
Bento XVI ainda reconhecera a contribuição do clero para o cenário desolador de secularização pelo qual passa a Irlanda. “DETERMINANTE foi também neste período [de secularização] a tendência, até da parte de sacerdotes e religiosos, para adotar modos de pensamento e de juízo das realidades seculares sem referência suficiente ao Evangelho”, escreveu o pontífice na ocasião. 

irlandesa comemora a aprovação do aborto no país

E junto com aquele lamento, o papa emérito trazia uma diagnose do problema, com ênfase a certos "procedimentos inadequados para determinar a idoneidade dos candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa", e concluindo-se com  uma série de propostas para conter a sangria aberta no seio da Igreja Irlandesa. Mas as medidas eram tardias para um mal que já alcançara a espinha dorsal do clero. A imagem do catolicismo no país já estava gravemente comprometida.  Cinco anos após a célebre carta de Bento XVI, em 2015, um referendo popular aprovava o “casamento gay” na Irlanda; e atingindo o ápice do declínio moral, em 2018, o aborto era aprovado também em referendo popular.
A Irlanda Católica chegava ao fim! Ser católico no país tornara-se estigma! E isso tudo graças a um clero corrompido.

terça-feira, 29 de maio de 2018

O EUGENISMO NAZISTA VINGA E PROSPERA EM NOSSOS TEMPOS



Nenhum texto alternativo automático disponível.
Cartaz da Campanha Eugênica Nazista que diz que as raças inferiores tem mais filhos que as raças superiores

               O caso do bebê Charlie Gard, e mais recentemente de Alfie Evans, que chocou o mundo, revelou que o mesmo espírito eugenico que guiou o nazismo em suas atrocidades inspirou os magistrados britânicos que decretaram a morte de Alfie -- portador de uma sindrome neuroegenerativa -- , por se considerar que seria "desumano e cruel" deixá-lo viver sem poder desfrutar dos mesmos prazeres que as outras pessoas, ou que sua vida seria um peso para a sociedade.
Curiosamente, há 80 anos, este era o mesmo argumento utilizado pelas autoridades nazistas para eliminar uma criança portadora de problemas mentais. O episódio que ficaria conhecido como "Caso Knauer", era o ponto de partida para um dos maiores programas de exterminio da história. Cuja "justificativa moral" se resumia em uma frase amplamente usada pelos nazistas: "morte misericordiosa". Que se tornaria em nossos tempos o grande emblema da eutanásia.


Entre 1939 a 1945, o ministro do interior do governo nazista emitiu um decreto para "prevenir problemas hereditarios" (Cf. IVb 3088/39 -- 1075 Mi) que na verdade era um grandioso programa de exterminio de crianças com deficiencias.
O documento elencava alguns grupos específicos que seriam exterminados, tais como:
Portadores de Síndrome de Down; microcéfalia; hidrocéfalia; Paralisia; má formações físicas etc.
O decreto ainda intimava o povo alemão a denunciar às autoridades as famílias que tinham crianças portadoras de deficiências.

Curioso que os mesmos grupos que eram vítimas dos programas de extermínio nazista, são vítimas dos programas de extermínio dos tempos modernos.
E tal espírito eugênico envolve um dos conceitos mais importantes do vocabulário político: Saúde. A OMS (Organização Mundial da Saúde) definiu por saúde o "estado de bem-estar biopsicossocial e não apenas ausência de doença". Como não encontrar neste conceito uma justificativa para atrocidades como a que vitimou Alfie e Charlie? Se a saúde é entendida como uma condição de se desfrutar de prazeres sensoriais, aqueles que não podem desfrutar de tais prazeres por incapacidade física, não seriam saudáveis, e conforme esse neo darwinismo social, deverão perecer no grande processo de seleção artificial promovido pelos governos internacionais. O espírito nazista permanece vivo e palpitante na mente de nossas autoridades, e isso, torna-se cada vez mais claro.


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Biblioteca Conservadora


             Estamos formando uma útil biblioteca de pdf para os nossos leitores. Por enquanto, são poucos títulos. Mas já temos a lista dos autores que pretendemos disponibilizar neste espaço. Dando preferência a autores de orientação conservadora. 



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Andrew Lobaczevisky
Ponerologia: psicopatas no poder

Antônio Almeida Morais Jr
A doutrina de Freud
Capital e trabalho

Aristóteles
Arte Poética 
Metafísica - Ética a Nicomaco - Arte Poética 
Sobre a alma 

Baltazar Gracian
A arte da virtude

Benjamin Wiker
Dez livros que estragaram o mundo

C. S Lewis
Os quatro amores
O grande abismo

Frans de Hovre
Ensaio de Filosofia Pedagógica


Fulton J. Sheen
O problema da liberdade

G. K Chesterton
Hereges
Ortodoxia

Hilaire Belloc
O Estado Servil (em espanhol)

Jules Monnerot 
Desmarxizar a universidade

Jose Ortega y Gasset
A desumanização da arte 
 
Malachi Martim
Os jesuítas e a traíção à Igreja Católica 

Olavo de Carvalho
Apoteose da vigarice

Pascal Bernardin
O Império Ecológico

Platão
A República 

Robert Nisbet
Conservadorismo

Roger Scruton
Spinoza 
Como ser um conservador

Theodore Dalrymple
Qualquer coisa serve

T. S Elliot
Notas para uma definição de cultura

REPENSANDO A FAMIGERADA POLARIZAÇÃO

  Tirinha de Caran D'Arche T enho fartas razões para crer que "a unidade em questão política é uma exceção. A polarização é a regra...