quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

A Nacionalidade


Lord Acton






A NACIONALIDADE
Tradução: Erick Ferreira






Título Original:
NATIONALITY
Home and foreign Review, July 1862
Públicado pela MacMillian and Co., Limited
San Martin’s Street, London, 1919












A INCRÍVEL ATUALIDADE DE LORD ACTON
Por Erick Ferreira


                   Nenhum daqueles que se propõe a discutir a questão do nacionalismo pode ignorar o nome de Lord Acton. Este intelectual inglês que viveu entre dois séculos (o XIX e o XX) pôde entender como poucos os problemas políticos que afligiam sua época e as implicações futuras que eles acarretariam. Denunciou com denodo as injustiças fragrantes cometidas pelas grandes potências no Congresso de Viena, que após a queda de Napoleão, se comprometeram a reorganizar a geopolítica europeia, e nesta empreitada, cometeram grandes injustiças como, a cruel divisão do território polonês entre os vencedores. Mas Acton, além de suas denuncias, apontou os pontos fracos e fortes dos mais esplendorosos impérios da época: o austro-hungaro e o britânico. E apontou a fragilidade das previsões dos estadistas perante os rumos sempre incertos e imprevisíveis da história.
                   A sociedade da época não imaginava que naquele ensaio publicados por um velho lord inglês, estariam os temas fundamentais dos dois maiores conflitos bélicos da história: a I Guerra Mundial e a II Guerra Mundial. Em algumas palavras, temos a antecipação dos conflitos mundiais, e ainda uma sutil previsão dos horrores do nazismo. Em um trecho, ele escreve:

A maior adversária dos direitos de nacionalidade é a moderna teoria da nacionalidade. Ao fazer o Estado e a nação coincidirem uma com a outra em teoria, se reduz praticamente à condição de sujeito todas as outras nacionalidades que podem existir dentro das fronteiras. Não se pode admiti-los a uma igualdade com o líder da nação que constitui o Estado, porque o Estado deixaria, então, de ser nacional, o que seria uma contradição do princípio da sua existência. Portanto, de acordo com o grau de humanidade e civilização que existe no corpo dominante que reivindica todos os direitos da comunidade, as raças inferiores são exterminadas, ou reduzidas à servidão; colocadas fora da lei ou deixadas em condição de dependência.

                   Acton, conforme se diz, era um homem a frente do seu tempo, e quem sabe... Até a frente dos nossos. Portanto, lê-lo é uma forma de proteção contra velhos erros. O leitor, naturalmente, se incomodará, em certas partes, com uma visão anticlerical, em outras, antinacionalista e antimonárquica, mas no geral, ficai com o bom e velho conselho de São Paulo: “examinai todas as coisas, e ficai com o que é bom” (I Tess 5, 21).




















A NACIONALIDADE
Por John Emerich Edward Dalberg-Actn, primeiro barão Acton







           Todas as vezes que um grande cultivo intelectual foi combinado com aquele sofrimento que é inseparável das extensivas mudanças na condição dos povos, homens de gênio especulativo ou imaginativo buscaram na contemplação de uma sociedade ideal um remédio, ou pelo menos, uma consolação para os males que eles foram praticamente incapazes de remover. A poesia sempre preservou a ideia, que em algum tempo ou lugar distante, em ilhas ocidentais ou região arcadiana, um povo inocente e satisfeito, livre da corrupção e repressão da vida civilizada, realizaram a lenda da idade de ouro.
             O oficio do poeta é quase o mesmo e há pouca variação nas feições do seu mundo ideal; mas quando os filósofos tentam admoestar ou reformar a humanidade inventando um estado imaginário, seu motivo é mais definido e imediato e sua riqueza comum é uma sátira, assim como um modelo. Platão e Plotino, More e Campanella, construíram suas sociedades fantásticas com aqueles materiais que foram omitidos da fábrica das comunidades atuais; pelos defeitos dos quais elas foram inspirados. A República, a Utopia, e a Cidade do Sol foram os protestos contra um estado de coisas que a experiência de seus autores ensinou a condenar e de cujas falhas se refugiaram nos extremos opostos.
                   Eles permaneceram sem influencia, e nunca passaram da literatura para a história política, porque algo a mais, além da ingenuidade descontente e especulativa, é necessária para investir em uma ideia política com poder sobre as massas da humanidade. O esquema de um filósofo só pode exigir a fidelidade prática de fanáticos, não de nações; e embora a opressão possa culminar em surtos violentos e repetitivos como as convulsões de um homem com dor, ela não pode amadurecer um plano de regeneração e um propósito conclusivo ao menos que uma nova noção de felicidade se una ao sentido do mal presente.
                    A história da religião nos fornece uma ilustração completa a este respeito. Entre as seitas do final da Idade Média e o protestantismo, há uma diferença essencial que tem mais importância que os pontos de semelhança que se encontram naqueles sistemas considerados como precursores da Reforma, e é o suficiente para explicar a vitalidade desta última em comparação com as outras. Enquanto Wycliffe e Hus se contrapuseram a certos ensinamentos particulares da Igreja, Lutero rejeitou a autoridade da Igreja, e deu à consciência individual uma independência que, estava certo, iria conduzi-la a uma resistência incessante. Há também uma diferença semelhante entre a Revolta dos Holandeses, a Grande Rebelião, a Guerra da Independência ou o Levante de Brabante, de um lado, e a Revolução Francesa de outro. Antes de 1789, as insurreições eram provocadas por injustiças particulares, e eram justificadas por queixas concretas e por um apelo a princípios que todos os homens já conheciam. Às vezes, novas teorias se desenvolviam no processo das controvérsias, mas elas eram acidentais, e o grande argumento contra a tirania era a fidelidade às antigas leis. Desde a mudança produzida pela Revolução Francesa, aquelas aspirações que eram despertadas pelos males e defeitos do estado social atuavam como forças enérgicas e permanentes ao longo do mundo civilizado. São forças espontâneas e agressivas, sem necessidade de algum profeta para proclamá-las, ou de um campeão para defendê-las; são forças populares, irracionais e quase irresistíveis. A revolução efetuou esta mudança, por uma parte, através de suas doutrinas, e por outra, através da influência indireta dos acontecimentos. Ensinou o povo a considerar seus desejos e necessidades como o supremo critério do direito. As rápidas vicissitudes do poder em que cada partido, sucessivamente, apelou ao favor das massas como o arbítrio do sucesso, acostumou essas massas, não somente, a serem arbitrárias, como também, insubordinadas. A queda de muitos governos, e a frequente redistribuição dos territórios privou a todos que estavam estabelecidos da dignidade da permanência. A tradição e a prescrição deixaram de ser guardiães da autoridade; e os arranjos que procederam das revoluções, dos triunfos, das guerras, e dos tratados de paz foram igualmente desconsiderados nos direitos estabelecidos. O dever não pode ser dissociado do direito, e as nações se recusam a ser controladas por leis que não lhes servem de qualquer proteção.
                   Nesta condição do mundo, teoria e ação seguem estreitamente unidas, e os males práticos facilmente podem dar origem a sistemas antagônicos. No domínio do livre-arbítrio, a regularidade do progresso natural é preservada pelos conflitos dos extremos. O impulso da reação arrasta os homens de uma extremidade a outra. A busca de um objetivo ideal e remoto que cative a imaginação por seu esplendor e a razão por sua simplicidade, evoca uma energia que não seria inspirada por um fim racional e possível, limitado por muitas pretensões antagônicas e reduzido ao que é racional, praticável e justo. Um excesso ou exagero é a correção de outro, e o erro promove a verdade onde as massas são tratadas pelo contrapeso de um erro contrário.  Poucos não tem força para realizar grandes mudanças sem ajuda; e muitos não tem sabedoria para ser movidos pela verdade pura. Onde as doenças são várias, nenhum remédio particular pode satisfazer as necessidades de todos. Somente a atração de uma ideia abstrata ou de um estado ideal podem unir em uma ação comum, multidões que buscam uma cura universal para muitos males especiais, e uma restauração comum aplicável a muitas situações diferentes. Por isso, falsos princípios que correspondem às más aspirações, assim como às aspirações justas da humanidade, são um elemento normal e necessário na vida social das nações.
                   Teorias deste tipo são justas, na medida em que sejam provocadas por uns problemas bem concretos e se proponham a eliminá-los; e são uteis desde que se oponham, como um aviso ou uma ameaça, para modificar as coisas existentes e conservar desperta a consciência do injusto. Elas não podem servir de base para a construção de uma sociedade ideal, assim como a medicina não pode servir de alimento; mas elas podem influenciar com vantagem, porque elas apontam a direção, embora, não na medida em que a reforma é necessária. Opõe-se uma ordem de coisas que é o resultado de um abuso egoísta e violento do poder pelas classes dominantes, e de uma restrição artificial sobre o progresso natural do mundo, desprovido de um elemento ideal ou um propósito moral. Extremos práticos diferem dos extremos teóricos que aqueles provocam, porque os primeiros são arbitrários e violentos, enquanto os últimos – embora também sejam revolucionários –, ao mesmo tempo, trazem algum remédio. Em um caso, o erro é voluntário, no outro, é inevitável. Este é o caráter geral da luta entre a ordem existente e as teorias subversivas que negam sua legitimidade. Existem três teorias principais deste tipo que impugnam a atual distribuição de poder, da propriedade e do território, e atacam respectivamente a aristocracia, a classe média e a soberania. São as teorias da igualdade, o comunismo e a nacionalidade. Embora tenham surgido de uma origem comum, ao oporem-se aos males congêneres, e se conectarem por muitas relações, não apareceram simultaneamente. Rousseau proclamou a primeira, Babeuf a segunda, e Mazzini a terceira. A terceira é mais recente em sua aparição, mais atraente ao nosso tempo e a mais rica em promessas para o poder no futuro.    
                   No velho sistema europeu, os direitos de nacionalidades nem eram reconhecidos por governos, nem reivindicados pelo povo. O interesse das famílias reinantes – não aqueles das nações –, regulavam as fronteiras; e a administração era conduzida geralmente sem qualquer referência aos desejos populares. Onde todas as liberdades estavam suprimidas, as reivindicações de independência nacional eram necessariamente ignoradas, e uma princesa, nas palavras de Fénelon, carregava uma monarquia como seu dote de casamento. Durante o século XVIII, os direitos corporativos foram esquecidos no Continente, pois os absolutistas se preocupavam somente com o Estado, e os liberais só com o indivíduo. A Igreja, os nobres, e a nação não tinham lugar nas teorias populares da época e não planejavam nada para sua própria defesa, já que não eram atacados abertamente. A Aristocracia conservava seus privilégios, e a Igreja sua propriedade; e o interesse dinástico, que se sobrepunha a inclinação natural das nações e destruía sua independência, conservava sua integridade. O sentimento nacional não era ferido em sua parte mais sensível. Despojar um soberano de sua coroa hereditária e anexar seus domínios seria considerado uma injuria a todas as monarquias e forneceria a seus súditos um exemplo perigoso, posto que era privar a realeza de seu caráter inviolável. Em tempo de guerra, como não havia nenhuma causa nacional em jogo, não havia motivo para que surgisse um sentimento nacional. A cortesia dos governantes em relações aos outros era proporcional ao desprezo às classes inferiores. Não havia animosidade, nem paixão na troca de cumprimentos entre os generais de exércitos inimigos; as batalhas eram travadas com a pompa e o orgulho de um desfile. A arte da guerra tornava-se um jogo lento e erudito. As monarquias estavam unidas não só por uma comunhão de interesses, mas por alianças familiares. Um casamento contraído, às vezes, se tornava o sinal para uma guerra interminável, mesmo que, as relações familiares impusessem uma barreira à ambição. Depois que as guerras de religiões chegaram ao fim em 1648, as únicas guerras que restaram eram aquelas travadas por uma herança ou uma posse, ou contra os países cujo sistema de governo se dispensava da lei comum dos estados dinásticos, e os tornavam não só desprotegidos, mas também odiosos. Estes países eram Inglaterra e Holanda; até que a Holanda deixou de ser uma República, e até que a derrota dos jacobinos em 1745 na Inglaterra, encerrou a disputa pela coroa. Havia um país, entretanto, que ainda continuava a ser uma exceção; um monarca cujo lugar não era admitido nas reuniões dos reis.
                   A Polônia não possuía aquela segurança e estabilidade que eram proporcionadas pelas relações dinásticas e a teoria da legitimidade onde quer que uma coroa pudesse ser obtida por um casamento ou uma herança. Um monarca sem sangue real, uma coroa outorgada pela nação, eram uma anomalia ou um ultraje naquela época de absolutismo dinástico. O país estava excluído do sistema europeu pela natureza de suas instituições. Isso excitou uma cobiça que não seria satisfeita, e não dava as famílias reinantes da Europa nenhuma esperança de aumentar seu poder de modo permanente por casamentos com seus governantes, ou de obter sua coroa por doação ou por herança. Os Habsburgos disputavam a posse da Espanha e das Índias com os Bourbons da França; da Itália com os Bourbons da Espanha; do Império com a Casa de Wittelsbach; da Silésia com a Casa de Hohenzollern. Havia guerras entre casas rivais na metade dos territórios da Itália e Alemanha. Mas nada se poderia esperar para compensar suas perdas ou aumentar seus poderes em um país ao qual nenhum matrimônio, nem a heranças lhes dava título algum. Como não podiam tomar como herança, se esforçavam mediante intrigas, a prevalecer em cada eleição, e depois de haver lutado pelo apoio dos candidatos que eram de seu acordo, os vizinhos ao fim, prepararam um instrumento para a demolição final do Estado Polonês. Até então nenhuma nação havia sido privada de sua existência política pelas potencias cristãs, e ainda que houvesse passado por cima dos interesses e simpatias nacionais, sempre haviam tido cuidado de ocultar a injustiça mediante uma perversão hipócrita da lei. Mas a repartição da Polônia foi um ato de violência desmedida, cometida em desafio aberto não só do sentimento popular, mas também do direito público. Pela primeira vez na história moderna um grande Estado era suprimido, e toda uma nação dividida entre seus inimigos.
                   Esta famosa medida, foi o ato mais revolucionário do velho absolutismo, despertando a teoria da nacionalidade na Europa, e convertendo um direito latente em uma aspiração; e um sentimento em uma reivindicação política. “Nenhum sábio ou honesto, escreveu Edmund Burke, pode aprovar essa repartição ou pode contemplá-la sem prever um grande dano para todos os países em algum tempo futuro” (Observations on the conduct of the minority, Works, v. 112). E a partir de então, passou a existir uma nação que desejava se unir a um Estado; uma alma, por assim dizer, vagando em busca de um corpo no qual possa começar a viver de novo; e, pela primeira vez, se ouviu o grito de que a estrutura dos Estados era injusta, que seus limites eram artificiais, e que todo um povo estava privado de seu direito a constituir uma comunidade independente. Antes que essa pretensão pudesse ser eficientemente afirmada contra o poder esmagador de seus oponentes –  antes que ela ganhasse força, após a última repartição, para superar a influencia de hábitos duradouros de submissão e do desprestigio que as desordens prévias haviam trazido sobre a Polônia –, o velho sistema europeu estava em ruínas e um novo mundo estava surgindo em seu lugar.
                   A antiga política despótica que converteu os polacos em uma presa fácil tinha dois adversários: o espírito de liberdade inglês e as doutrinas daquela revolução que destruiu a monarquia francesa com suas próprias armas. E esses dois contradizem por vias opostas a teoria de que as nações não tem direitos coletivos. No momento presente, a teoria da nacionalidade não só é a auxiliar mais poderosa da revolução, como também o núcleo mais dinâmico nos movimentos dos últimos anos. Esta, entretanto, é uma aliança recente, desconhecida à primeira Revolução Francesa. A teoria moderna da nacionalidade surgiu, por uma parte, como uma legitima consequência da Revolução, e por outra, como uma reação contra ela. Como o sistema que colocava de lado as divisões nacionais se opôs ao liberalismo de duas formas, a francesa e a inglesa, assim o sistema que insistia sobre eles procede de duas fontes distintas, e exibe seu caráter tanto em 1688 como em 1789. Quando o povo francês aboliu as autoridades sob as quais vivia e se converteu em seu próprio dono, a França estava em perigo de dissolução, pois a vontade comum é difícil de destruir e não se forma facilmente. “As leis – disse Vergniaud no debate sobre o juízo do rei – são obrigatórias somente como vontade presuntiva do povo, o qual conserva o direito de aprová-las ou reprová-las”. No instante em que o povo manifesta o seu desejo, a obra da representação nacional, a lei, tem que desaparecer. Esta doutrina dissolveu a sociedade em seus elementos naturais e ameaçou romper-se no país em tantas repúblicas quanto em comunas. Pois o verdadeiro republicanismo é o princípio do autogoverno no conjunto, no todo e nas partes. Em um país extenso, isto pode prevalecer só através da união de várias comunidades independentes em uma única confederação, como na Grécia, Suíça, Holanda e na América, de modo que uma grande República que não esteja fundada no princípio do federalismo viria a acabar sob o governo de uma única cidade, como Roma e Paris, e em grau inferior, Atenas, Berna e Amsterdã. Em outras palavras, uma grande democracia tem que sacrificar o autogoverno pela unidade, ou preservá-lo por meio do federalismo.
                   A França da história caiu junto com o Estado Francês, que era o produto do crescimento de séculos. A velha soberania foi destruída. As autoridades locais contemplavam tudo com aversão e pesar. A nova autoridade central necessitava ser estabelecida sobre um novo princípio de unidade. O “Estado de Natureza”, que era o ideal de sociedade, foi convertido em fundamento da nação; a descendência tomou o lugar da tradição, e os franceses eram considerados como um produto físico: uma unidade etnológica, não histórica. Assumiu-se que havia uma unidade separada de representação e do governo, totalmente independente do passado, e capaz de, em qualquer momento, expressar ou mudar de mentalidade. Nas palavras de Sieyès, não era mais a França, mas um determinado país desconhecido para o qual a nação havia sido transferida. O poder central possuía autoridade, na medida em que, obedecia ao todo; e nenhuma divergência do sentimento universal era permitida. Este poder, dotado de volição, foi personificado na República Única e Indivisível. O título significava que uma parte não podia falar ou agir pelo todo – pois havia um poder supremo sobre o Estado, distinto e independente de seus membros; e isso expressou, pela primeira vez na história, o conceito de uma nacionalidade abstrata. Desta forma, a ideia de soberania do povo, não controlada pelo passado, deu origem à ideia de nacionalidade independente da influência política da história. E nasceu da rejeição de duas autoridades, o Estado e o passado. O reino da França era, tanto geograficamente como politicamente, o produto de uma longa série de eventos; e os mesmos fatores que construíram o Estado formaram o território. A revolução rejeitou tanto os órgãos aos quais a França devia suas fronteiras, como aqueles aos quais devia o seu governo. Cada linha apagável ​​e cada relíquia da história nacional foi cuidadosamente eliminada: o sistema de administração, as divisões físicas do país, as classes sociais, corporações, pesos e medidas, o calendário. A França não estava mais vinculada aos limites que recebera da influência censurada de sua história; ela poderia aceitar apenas aqueles que vieram da natureza. A definição de uma nação foi emprestada do mundo natural, e, a fim de evitar uma perda de território, ela tornou-se não apenas abstração, mas uma ficção.
                   Havia um princípio de nacionalidade no caráter etnológico do movimento, que é a fonte da observação comum de que a revolução é mais frequente nos países católicos que nos protestantes. É, de fato, mais frequente no mundo latino do que no mundo teutônico, porque depende, em parte, de um impulso nacional que só desperta onde há um elemento estranho; o vestígio de uma dominação estrangeira que deve ser expulsa. A Europa Ocidental sofreu duas conquistas, uma para os romanos e outra para os germânicos, e duas vezes obedeceu as leis dos invasores. Cada vez que ela se levantou novamente contra a raça vitoriosa; e as duas grandes reações, embora diferem de acordo com os diferentes caracteres das duas conquistas, têm em comum o fenômeno do imperialismo. A república romana trabalhou para reduzir as nações subjugadas a uma massa homogênea e obediente, mas o crescimento que a autoridade proconsular obtinha no processo, acabava subvertendo o governo republicano, e a reação das províncias contra Roma ajudava o estabelecimento do Império. O sistema cesariano deu uma liberdade sem precedentes às províncias, elevando-as à igualdade civil, o que colocava fim ao domínio de uma raça sobre a outra e uma classe sobre outra. A monarquia foi aclamada como um refúgio do orgulho e da cupidez do povo romano; e o amor à igualdade, ódio à nobreza e a tolerância do despotismo implantado por Roma, se tornaram, pelo menos na Gália, a principal característica do caráter nacional. Mas entre as nações cuja vitalidade foi destruída pela austera República, nenhum reteve os materiais necessários para desfrutar de independência ou para desenvolver uma nova história. A faculdade política que organiza Estados e constrói uma sociedade dentro de uma ordem moral estava esgotada, e os doutores cristãos buscavam em vão, sobre a vastidão das ruínas, por um povo, que com a ajuda da Igreja, poderia sobreviver à decadência de Roma. Um novo elemento de vida nacional foi trazido a este mundo declinado pelos inimigos que o destruíam. A maré dos povos bárbaros inundava-os por um tempo e depois começava a diminuir, e quando os marcos da civilização surgiam novamente, via-se que o solo havia sido impregnado com uma influência fertilizante e regenerativa, e que a inundação lançava os germes dos futuros Estados e de uma nova sociedade. A energia e o sentido político vieram com o novo sangue, e exibiam no poder exercido pela jovem raça sobre a velha, e no o estabelecimento de uma liberdade gradual. Em vez de direitos iguais e universais, cujo desfrute efetivo, necessariamente, era dependente de poder e proporcionado a ele, os direitos do povo eram dependentes de uma variedade de condições, a primeira delas era a distribuição da propriedade.
                   A sociedade civil tornou-se um organismo estratificado em vez de uma combinação composta de átomos, e o sistema feudal apareceu gradualmente. A Gália Romana adotou por completo as ideias de autoridade, igualdade absoluta e uniforme durante os cinco séculos entre César e Clovis, de modo que, as pessoas nunca poderiam se reconciliar com o novo sistema. O feudalismo permaneceu uma importação estrangeira, e a aristocracia feudal como uma raça alienígena. As pessoas comuns da França buscaram proteção contra ambos na jurisprudência romana e no poder da coroa. O desenvolvimento da monarquia absoluta com a ajuda da democracia é o único caráter constante da história da França. Primeiro, poder feudal real, e depois limitado por imunidades e os grandes vassalos, tornou-se mais popular como mais foi feito Absoluto enquanto, a supressão da aristocracia, a remoção das autoridades intermediárias, foi o objeto particular da nação, que foi executado com a maior energia após a queda do trono. A monarquia, que havia se comprometido desde o século XIII, em conter os nobres, foi finalmente expulsa pela democracia, porque ela era muito lenta no trabalho e foi incapaz de negar a sua própria origem, arruinando efetivamente a classe da qual havia surgido. Todas essas coisas que constituíam o caráter peculiar da Revolução Francesa – a demanda por igualdade, o ódio à nobreza, ao feudalismo e à Igreja que era aliada deles; a constante referência a exemplos pagãos; a supressão da monarquia, o novo código de lei, a ruptura com a tradição e a substituição de tudo o que emergia da mistura e ação mútua das raças por um sistema ideal, tudo isso é uma amostra do tipo comum de uma reação contra efeitos da invasão dos francos. O ódio da realeza era menor que o ódio dirigido à aristocracia; os privilégios eram mais detestados do que a tirania; e o rei pereceu mais pela origem de sua autoridade do que por seu abuso. Na França, a monarquia, desconectada da aristocracia, tornou-se popular, mesmo nos momentos de maior falta de controle; pelo contrário, a tentativa de reconstruir o trono e limitá-lo e dividi-lo com seus pares se desfez, porque os antigos elementos teutônicos nas quais ele confiava, nobreza hereditária, primogenitura e privilégios, não eram mais tolerados. A substância das ideias de 1789 não é a limitação do poder soberano, mas a revogação de poderes intermediários. Esses poderes e as classes que os apreciavam chegaram à América Latina a partir de sua origem bárbara; enquanto o movimento que se chama liberal, é essencialmente nacional. Se a liberdade fosse seu objetivo, seus meios seriam o estabelecimento de grandes autoridades independentes não derivadas do Estado, e seu modelo seria a Inglaterra. Mas seu objetivo era a igualdade; e esta busca, como na França em 1789, expeliu os elementos de desigualdade que foram introduzidos pela raça Teutônica Este é o objetivo que a Espanha e a Itália têm em comum com a França, e esta é a liga natural das nações latinas.
Este elemento nacional no movimento não foi compreendido pelos líderes revolucionários. A princípio, sua doutrina parecia inteiramente contrária à ideia de nacionalidade. Eles ensinaram que certos princípios gerais do governo eram absolutamente corretos em todos os estados; e eles alegaram em teoria a liberdade irrestrita do indivíduo e a supremacia da vontade sobre cada necessidade ou obrigação externa. Esta em contradição aparente com a teoria nacional, que certas forças naturais devem determinar o caráter, a forma e a Política de Estado, com a qual se coloca um tipo de destino no lugar da liberdade. Consequentemente, o sentimento nacional não foi desenvolvido diretamente fora da revolução em que ele estava envolvida, mas apareceu, em primeiro lugar, em resistência a ela, quando a tentativa de emancipação foi absorvida pelo desejo de submete-se, e a República foi sucedida pelo Império. Napoleão trouxe um novo poder à existência, atacando a nacionalidade na Rússia, dando-lhe rédea livre na Itália e decisão contra ela na Alemanha e na Espanha. Os soberanos desses países foram depostos ou degradados; e um sistema de administração, que era francês, foi introduzido em sua origem, em seu espírito e em seus instrumentos. O povo resistiu à mudança.
                   O movimento contra ele era popular e espontâneo; porque os governantes estavam alheios ou sem apoio; e era nacional porque estava diretamente contra as instituições estrangeiras. No Tirol, na Espanha e depois na Prússia, o povo não recebeu o impulso do governo, mas empreendeu por sua própria iniciativa a expulsão dos exércitos e ideias da França revolucionária. Os homens tomaram consciência do elemento nacional da revolução através de suas conquistas, e não no momento em que ele surgiu. As três coisas que o Império, abertamente, mais oprimiu – religião, independência nacional e liberdade política – uniram-se em uma liga episódica para animar a grande revolta que levou a queda de Napoleão. Sob a influência de uma daquela memorável aliança, um espírito político apareceu no continente, que aderiu à liberdade e odiou a revolução, e procurou restaurar, desenvolver e reformar as instituições nacionais decadentes. Os homens que proclamaram essas ideias, Stein e Görres, Humboldt, Müller e De Maistre, eram tão hostis ao bonapartismo quanto ao absolutismo dos antigos governos e insistiram nos direitos nacionais que haviam sido espezinhados igualmente por ambos, e que eles esperavam restaurar através da destruição da supremacia francesa. Mas os amigos da revolução não tinham simpatia pela causa que triunfou em Waterloo, pois haviam aprendido a identificar sua doutrina com a causa da França. Os Whigs da Casa Holandesa na Inglaterra, os Frenchified (afrancesados) na Espanha, os Muratistas na Itália e os partidários da Confederação do Reno, que fundiram o patriotismo com seus sentimentos revolucionários, lamentaram a queda do poder francês e contemplaram com pesar as novas e desconhecidas forças que a Guerra de Libertação havia despertado que ameaçavam tanto o liberalismo francês como à supremacia francesa.
                   Mas as novas aspirações pelos direitos populares e nacionais foram esmagados durante a Restauração. Os liberais daqueles dias preocuparam-se com a liberdade, não sob a forma de independência nacional, mas das instituições francesas; e eles se uniram contra as nações com a ambição dos governos. Eles estavam prontos para sacrificar a nacionalidade por seu ideal, como a Santa Aliança estava para os interesses do absolutismo. Talleyrand declarou efetivamente em Viena que a Questão Polonesa devia ter precedência sobre todas as questões, porque a repartição da Polônia era uma das primeiras e mais importantes causas de males que a Europa sofrera; mas os interesses dinásticos prevaleceram. Todos os soberanos representados em Viena recuperaram seus domínios, exceto o rei de Saxônia, que foi punida por sua lealdade a Napoleão; mas os Estados que não foram representados nas famílias dominantes – a Polônia, Veneza e Gênova – não foram restaurados, e até mesmo o Papa teve grande dificuldade em recuperar as Legações das garras da Áustria. A nacionalidade, que o Antigo Regime tinha ignorado, havia sido ultrajada pela Revolução e pelo Império, e receberam, depois de sua primeira demonstração aberta, o golpe mais duro no Congresso de Viena. O princípio que tinha sido gerado pela primeira repartição, para a qual a Revolução tinha dado uma base teórica, que tinha sido fustigada pelo Império até transformar-se em um esforço convulsivo episódico, veio a amadurecer, graças ao erro permanente da Restauração em uma doutrina consistente, alimentada e justificada pela situação europeia.
                   Os governos da Santa Aliança dedicaram-se a suprimir com igual cuidado o espírito revolucionário, pelo qual haviam sido ameaçados, e o espírito nacional, pelo qual haviam sido restaurados. A Áustria, que não devia nada ao movimento nacional e que tinha impedido a sua restauração depois de 1809, naturalmente tratou de iniciar a sua repressão. Qualquer perturbação dos arranjos finais de 1815, qualquer aspiração de mudanças ou reformas, era condenada como sedição. Este sistema reprimiu as boas e as más tendências da época, e a resistência que isto provocou, durante a geração que viveu da Restauração até a queda de Metternich, e novamente sob a reação que começou com Schwarzenberg e terminou com as administrações de Bach e Manteuffel, procederam das várias combinações de diferentes formas de liberalismo. Nas fases sucessivas dessa disputa, a ideia de que as reivindicações nacionais estão acima de todos os outros direitos, gerou gradualmente a supremacia que agora se possuía entre os agentes revolucionários. O primeiro movimento liberal, o dos Carbonários no sul da Europa, não tinha um caráter especificamente nacional, e era apoiado pelos bonapartistas tanto na Espanha como na Itália. Nos anos seguintes, as ideias opostas de 1813, vieram para o front, e começou um movimento revolucionário em muitos pontos hostis aos princípios da Revolução, e em defesa da liberdade nacional e religiosa. Todas essas causas foram unidas na agitação irlandesa, e nas revoluções grega, belga e polaca. Esses sentimentos, que tinham sido atacados por Napoleão e que se levantaram contra ele, levantaram-se contra os governos da restauração. Eles haviam sido oprimidos pela espada e depois pelos tratados. O princípio nacional acrescentou força, mas não justiça a esse movimento, que em todos os casos, exceto na Polônia, foi bem sucedido. Seguiu-se um período em que o princípio nacional degenerou em uma ideia puramente nacional, enquanto a agitação em prol da revogação foi sucedida pela emancipação, o pan-eslavismo e o pan-helenismo que surgiram sob os auspícios da Igreja Oriental. Esta foi a terceira fase da resistência ao acordo de Viena, que era fraco porque não era capaz de satisfazer as aspirações nacionais ou constitucionais, qualquer que fosse a salvaguarda contra o outro, se não por uma justificação popular, ou pelo menos moral. No início, em 1813, as pessoas se levantaram contra seus conquistadores em defesa de seus governantes legítimos. Eles se recusaram a ser governados por usurpadores. No período entre 1825 e 1831 eles decidiram não aceitar o desgoverno de estrangeiros. A administração francesa foi muitas vezes melhor do que a que ela deslocava, mas esta tinha pretendentes que tinham prioridade à autoridade exercida pelos franceses, e no início a luta nacional foi uma luta pela legitimidade. No segundo período, esse elemento estava faltando. Nenhum dos príncipes destronados liderava os gregos, os belgas ou os poloneses. Os turcos, os Holandeses, e os russos não foram atacados por serem usurpadores ou por ser de uma raça diferente, mas por serem opressores, e governarem mal. Então começou a época em que o lema era simplesmente que, as nações não deveriam mais ser governadas por estrangeiros. O poder legitimamente obtido, e exercido com a moderação, foi declarado inválido. Direitos nacionais, como religião, tomavam parte nas combinações prévias e colaboravam nas lutas pela liberdade, mas agora a nacionalidade tornava-se uma reivindicação suprema que se afirmaria por si só, e que serviria como pretexto para os direitos dos governantes, as liberdades do povo, e o bem da religião, mas que, se tal união não pudesse ser alcançada, prevaleceria à custa de qualquer outra causa pela qual as nações são sacrificadas.
                   Metternich é, depois de Napoleão, o principal promotor dessa teoria; pois o caráter antinacional da Restauração era mais distinto na Áustria, e estava em oposição ao governo austríaco, onde a nacionalidade se tornava um sistema. Napoleão, que, confiando em seus exércitos, e desprezava as forças morais na política, foi derrotado pelo surgimento destes. A Áustria cometeu o mesmo fracasso no governo de suas províncias italianas. O reino da Itália uniu toda a parte norte da península em um único Estado, e os sentimentos nacionais, que os franceses reprimiram em outros lugares, foram encorajados como uma salvaguarda do seu poder na Itália e na Polônia. Quando a vitória mudou os rumos dos acontecimentos, a Áustria invocou contra os franceses a ajuda do novo sentimento que estes tinham encorajado. Nugent anunciou em sua proclamação aos italianos que eles deveriam se tornar uma nação independente. O mesmo espírito serviu diferentes mestres: e contribuiu primeiro para a destruição dos antigos Estados, depois para a expulsão dos franceses e, novamente, sob Carlos Alberto, para uma nova revolução. E isto foi invocado em nome dos princípios mais contraditórios do governo e serviu a todas as partes sucessivamente, porque era um princípio em que todos poderiam se unir. Tudo começou com um protesto contra o domínio de uma raça sobre outra raça, e sua forma mais suave e menos desenvolvida, converteu-se na condenação de cada Estado que incluía diferentes raças, e finalmente, tornou-se a teoria completa e consistente de que o Estado e a nação deveriam ser mais extensos. "Em geral, diz Mill, é uma condição necessária das instituições livres que as fronteiras dos governos coincidam tanto quanto possível com as das nacionalidades". O sinal do progresso histórico desta ideia advém de uma aspiração indefinida de ser a pedra angular de um sistema político que pode ser seguido na vida do homem que lhe deu o elemento em que reside sua força: Giuseppe Mazzini. Mazzini encontrou o carbonarismo impotente contra os governos, e decidiu dar uma nova vida ao movimento liberal, lhe conduzindo à terra da nacionalidade. O exílio é a semeadora da nacionalidade, assim como a opressão é a escola do liberalismo; e Mazzini concebeu a ideia da Itália Jovem quando estava refugiado em Marselha. Da mesma forma que os poloneses exilados são os campeões de todo o movimento nacional, porque para eles todos os direitos políticos são absorvidos na ideia de independência, que, por mais que seja diferente para cada um, é a única aspiração comum a todos eles. Para o ano de 1830, a literatura também contribuiu para a ideia nacional. "Chegou a hora, diz Mazzini, do grande conflito entre escola romântica e clássica, que poderia, com igual verdade, ser chamada de conflito entre os defensores da liberdade e da autoridade." A escola romântica era pagã na Itália e católica na Alemanha, mas em ambos tiveram o efeito comum de incentivar a história nacional e a literatura, e Dante foi uma grande autoridade para os democratas italianos como para os líderes do ressurgimento medieval em Viena, Munique e Berlim. Mas nem a influência dos exilados, nem a dos poetas e críticos do novo partido, se estendeu sobre as massas. Era uma seita sem simpatia nem força popular, uma conspiração fundada não em uma injustiça, mas em uma doutrina. Quando a tentativa de insurreição ocorreu em Savoia, em 1834, sob o lema de: "Unidade, Independência, Deus e Humanidade", as pessoas permaneceram perplexas diante de seu objetivo e indiferente ao seu fracasso. Mas Mazzini continuou sua propaganda, desenvolveu sua Giovine Italia (Jovem Itália) em uma Giovine Europe (Jovem Europa), e fundou em 1847 a Liga Internacional das Nações. "As pessoas, disse ele em seu discurso inaugural, são penetradas por uma única ideia: unidade e nacionalidade... Não há problema internacional em relação às formas de governo, mas apenas um problema nacional”. A revolução de 1848, mal-sucedida em seu objetivo nacional, preparou a vitória da nacionalidade de duas maneiras. A primeira foi a restauração do poder austríaco na Itália, com uma nova e mais enérgica centralização, que não dava esperança de liberdade. Enquanto este sistema prevaleceu, a lei estava do lado das aspirações nacionais, que foram revividas de uma forma mais completa e culta por Manin. A política do governo austríaco, que falhou durante seus dez anos de reação em sua tentativa de transformar a dominação pela força em uma dominação pela Lei, e estabelecer junto com instituições livres a base da lealdade, deram um impulso negativo à teoria. Isso privou Francisco José de todo apoio e simpatia ativa em 1859, pois ele realmente estava mais errado em sua conduta do que seus inimigos em suas doutrinas. A verdadeira causa da energia que a teoria nacional adquiriu é, no entanto, o triunfo do princípio democrático na França e seu reconhecimento pelas potências europeias. A teoria da nacionalidade está envolvida na teoria democrática da soberania da vontade geral. “Dificilmente se sabe o que qualquer divisão da raça humana teria liberdade para fazer, se não se decidir com quais dos vários corpos coletivos de seres humanos deseja se associar". (Stuart Mill, Considerations) É por este ato que uma nação constitui-se. A unidade é necessária para haver uma vontade coletiva, e a independência é a exigência para afirmá-la. Unidade e nacionalidade são ainda mais essenciais para a noção de soberania do povo do que a deposição dos monarcas ou a revogação das leis. Os atos arbitrários deste tipo podem ser impedidos pela felicidade do povo ou a popularidade do rei, mas uma nação inspirada pela ideia democrática não pode, coerentemente, permitir a uma de suas partes, pertencer a um Estado estrangeiro, ou que o todo seja dividido em vários Estados nativos. A teoria da nacionalidade, portanto, vem dos dois princípios que dividem o mundo político: o da legitimidade, que ignora sua demandas e da revolução, que as assume. Pela mesma razão, é a principal arma do último contra o primeiro.
                   A investigação do crescimento externo e visível da teoria nacional nos preparou para um exame de seu caráter e valor político. O absolutismo que a criou, nega igualmente que o direito absoluto da unidade nacional é um produto da democracia, e aquela exigência por liberdade nacional pertence à teoria da liberdade. Estas duas visões de nacionalidade, que correspondem aos sistemas inglês e francês, estão conectados apenas pelo nome, e são na verdade, os extremos opostos do pensamento político. Em um caso, a nacionalidade é fundada na supremacia perpétua da vontade coletiva, da qual a unidade da nação é a condição necessária, perante a qual, qualquer outro interesse deve ceder, e contra o qual nenhuma obrigação goza de autoridade e toda resistência é tirânica. A nação é, portanto, uma unidade ideal fundada na raça, em desafio as ações que modificam causas externas, de tradição e de direitos existentes. Se  sobrepõe aos direitos e desejos dos seus habitantes, absorvendo seus interesses divergentes em uma unidade fictícia; sacrifica suas várias inclinações e deveres à mais elevada reivindicação da nacionalidade, e esmaga todos os direitos naturais e estabelece todas as liberdades com o propósito de se justificar. Sempre que um objeto único e definido se torna o fim supremo do Estado – seja a vantagem de uma classe, a segurança ou o poder do país, a maior felicidade do maior número, ou a defesa de qualquer ideia especulativa, o Estado inevitavelmente se torna absoluto nessa situação. Somente a liberdade exige para sua realização a limitação da autoridade pública, já que para a liberdade é o único objetivo que beneficia a todos igualmente e não  provoca nenhuma oposição verdadeira. Em defesa das reivindicações da unidade nacional, o governo deve ser subvertido, mesmo que sua condição seja perfeitamente legítima e sua política benéfica e equitativa, e os sujeitos têm que ser forçados a transferir sua fidelidade a uma autoridade com a qual eles não têm ligação e que poderia ser praticamente uma dominação estrangeira.
                   Sem qualquer conexão com este teoria, exceto na inimizade comum ao Estado absoluto, é a teoria que representa a nacionalidade como um elemento essencial, mas não supremo, na determinação das formas do Estado. Isto distingue-se dos outros, porque tende a diversidade e não à uniformidade, à harmonia e não à unidade, porque se dirige não à uma mudança política e arbitrária, mas ao devido cuidado às condições existentes da vida política, e porque está sujeita as leis e resultados da história, não as aspirações de um ideal para o futuro. Enquanto a teoria da unidade faz da nação uma fonte de despotismo e revolução, a teoria da liberdade a considera o baluarte do autogoverno e o principal limite ao poder excessivo do Estado. Direitos privados, que são sacrificados à unidade, são preservados pela união das nações. Nenhum poder pode resistir tão eficientemente às tendências de centralização, corrupção e absolutismo, como aquela comunidade que é a mais vasta que pode ser incluída em um Estado, e que impõe aos seus membros uma similaridade consistente de caráter, interesse e opinião, e que restringe a ação do soberano através da influência de um patriotismo dividido. A presença de diferentes nações sob a mesma soberania é semelhante, em seus efeitos, a independência da Igreja do Estado. É um recurso contra o servilismo que floresce sob a sombra de uma autoridade única, equilibrando os interesses, e multiplicando as associações, e dando ao sujeito a moderação e o apoio de uma opinião plural. Da mesma forma, promove também a independência através da formação de grupos definidos da opinião pública e através da disponibilização de uma grande fonte e centro de sentimentos políticos e noções de dever não derivadas da vontade soberana. A liberdade promove a diversidade e a diversidade preserva a liberdade fornecendo meios de organização. Todos estes aspectos do Direito que governam as relações entre os homens e regulam a vida social, são os resultados variados dos costumes nacionais e da criação da sociedade privada. Nestas coisas, portanto, diferentes nações podem diferir umas das outras, uma vez que foram produzidas para si e não devido ao Estado que governa a todos. Este diversidade no mesmo Estado é uma forte barreira contra a intromissão do governo além da esfera política que é comum a todos e contra a sua intromissão na esfera social que está fora da legislação e é regulada por leis espontâneas. Esse tipo de interferência é característico de um governo absoluto, e é certo que acabará provocando uma reação e, finalmente, uma correção. É certo que a intolerância à liberdade social, que é natural absolutismo, encontra um corretivo nas diversidades nacionais, que nenhuma outra força poderia fornecer de forma tão eficiente. A coexistência de diferentes nações sob o mesmo Estado é a prova, assim como, a melhor garantia da sua liberdade. E é também um dos principais instrumentos de civilização e, na mesma medida, dentro da ordem natural e providencial, indica um estado mais avançado, do que a unidade nacional, que é o ideal do liberalismo moderno.
                   A combinação de diferentes nações em um Estado é uma condição da vida civilizado tão necessária quanto a combinação de homens na sociedade. As raças inferiores são elevadas pela coexistência, em uma união política, com raças intelectualmente superiores. As nações exauridas e decadentes revivem ao contato com uma vitalidade mais jovem. As nações nas quais os elementos de organização e a capacidade do governo se perdem, seja pela influência desmoralizante do despotismo ou pela ação desintegradora da democracia, são restauradas e educadas novamente sob a disciplina de uma raça mais forte e menos corrupta.
                   Este processo de fertilização e regeneração só pode ser obtido vivendo sob um governo. Está no alambique do Estado onde a fusão acontece através do vigor, do conhecimento e da capacidade de uma parte da humanidade, pode ser comunicada a outro. Onde as fronteiras políticas e nacionais coincidem, a sociedade pára de progredir e as nações caem em uma condição que corresponde àquela dos homens que renunciam ao acordo com seus pares. A diferença entre os dois une a humanidade não só pelos benefícios que dá àqueles que vivem juntos, mas porque conecta a sociedade por um vínculo político ou nacional e dá a cada povo um interesse em seus vizinhos, ou porque eles estão sob o mesmo governo, ou porque pertencem à mesma raça, e assim promovem os interesses da humanidade, da civilização e religião.
                   O cristianismo está satisfeito com a mistura de raças como paganismo identifica com suas diferenças, porque a verdade é universal e os erros são diversificada e particular. No mundo antigo, a idolatria e a nacionalidade eram juntos, e na Sagrada Escritura o mesmo termo se aplica a ambos. Foi missão da Igreja superar as diferenças nacionais. O período de sua supremacia indiscutível foi aquele em que toda a Europa Ocidental obedeceu as mesmas leis, toda a literatura foi expressa em uma língua, a unidade política do cristianismo ela foi personificada em uma única autoridade, e sua unidade intelectual era representado na universidade única. Enquanto os antigos romanos completaram suas conquistas levando os deuses do povo conquistado, Carlos Magno derrotou resistência nacional dos saxões apenas pela destruição coerciva de seus ritos pagãos Desde aquele período medieval e a ação combinada da raça germânica e da Igreja nasceu um novo sistema de nações e uma nova concepção de nacionalidade A natureza foi superada tanto na nação quanto no indivíduo.
                   Em tempos pagãos e incultos, as nações distinguiam-se umas das outras pela grande diversidade, não só na religião, mas nos costumes, linguagem e caráter. Sob a nova lei eles tinham mais coisas em comum: as velhas barreiras que os separavam foram removidas, e o novo princípio do governo autônomo, que a Cristandade impôs, permitiu-lhes viver juntos sob a mesma autoridade, sem, necessariamente, perder seus queridos hábitos, costumes ou leis. A nova ideia de liberdade abriu espaço para diferentes raças em um único estado. Uma nação nunca mais seria o que havia sido no mundo antigo, a descendência de um ancestral comum ou o produto aborígene de uma determinada região – ou seja, um resultado de causas meramente físicas e materiais –, mas um ser moral e político; não a criação de uma unidade fisiológica ou geográfica, mas uma unidade desenvolvida no decurso da história através da ação do Estado. Isto é, derivado do Estado, não superior a ele. Um Estado pode, no curso do tempo, produzir uma nacionalidade, mas que uma nacionalidade deveria constituir um Estado é contraria à natureza da civilização moderna. A nação deriva seus direitos e seu poder da memória de uma independência anterior.
                   A Igreja, a este respeito, concordou com a tendência do progresso político, e desencorajou, onde quer que fosse possível, o isolamento das nações; instruindo-as sobre seus deveres mútuos e considerando a conquista e a investidura feudal como o meio natural de criar nações barbaras ou lança-las a um nível mais elevado. Embora, a Igreja nunca tenha atribuído a independência nacional uma imunidade das consequências acidentais do direito feudal, das reivindicações hereditariedade ou a arranjos testamentários, ela defende a liberdade nacional contra a uniformidade e a centralização com uma energia inspirada na ideia da perfeita comunhão de interesses, pois, o mesmo inimigo ameaça a ambos. E o Estado que está relutante em tolerar diferenças e fazer justiça ao caráter peculiar de diferentes raças, deve da mesma forma, interferir no governo interno da religião. A conexão da liberdade religiosa com a emancipação da Polônia, ou da Irlanda, não é apenas o resultado acidental de causas locais e o fracasso da Concordata em unir os sujeitos austríacos, é a consequência natural de uma política que não deseja proteger as províncias em suas diversidade e autonomia, mas procurou subornar a Igreja com favores para reforçá-lo com a sua independência. Desta influência da religião na história moderna uma nova definição de patriotismo nasceu.  
                   A diferença entre nacionalidade e Estado aparece na natureza da adesão patriótica. Nossa conexão com a raça é meramente natural ou física, enquanto nossos deveres para com a nação política são éticos. Uma é uma comunidade de afetos e instintos infinitamente importantes e poderosos na vida selvagem, mas que são mais típicos do animal do que do homem civilizado; a outra é uma autoridade que governa com leis, que impõe obrigações, e que dá sanção e caráter moral às relações naturais da sociedade. O patriotismo é na vida política o que é a fé na religião, e está relacionado a sentimentos domésticos e a nostalgia do lar, como a fé está ao
fanatismo e à superstição. Tem um aspecto derivado da vida privada e da natureza, pois é uma extensão dos sentimentos familiares, pois a tribo é uma extensão da família. Mas em seu verdadeiro caráter político, o patriotismo consiste na transformação do instinto de autopreservação em um dever moral que pode envolver auto-sacrifício. A autopreservação é tanto um instinto quanto um dever natural e involuntário, por um lado, e uma obrigação moral, por outro. Pelo primeiro, se dá origem à família; pelo segundo, ao Estado. Se a nação pudesse existir sem o Estado, sujeita apenas ao instinto de autopreservação, seria incapaz de negar, controlar ou sacrificar; seria um fim e uma norma para si. Mas na ordem política, objetivos morais são realizados e fins públicos são procurados para os quais os interesses privados e até a existência devem ser sacrificados. O grande sinal de verdadeiro patriotismo, o desenvolvimento do egoísmo para o sacrifício, é o produto da vida política. Este senso de dever que é fornecido pela raça não é completamente separado de sua base egoísta e instintiva, e o amor do país, como o amor matrimonial, baseia-se ao mesmo tempo em uma base material e em outra moral. O patriota deve distinguir entre as duas causas ou objetos de sua devoção. O apego que é dado apenas ao país é como a obediência que é dada só ao Estado: uma submissão a influências físicas. O homem que coloca seu país acima de qualquer outro dever, mostra o mesmo espírito que o homem que desiste de todos os seus direitos pelo Estado. Ambos negam que a lei é superior à autoridade. Há um país moral e político, nas palavras de Burke, diferente do geográfico, que pode, possivelmente, entrar em colisão com ele. Os franceses que pegaram em armas contra a Convenção eram tão patriotas quanto os ingleses que pegaram em armas contra o Rei Charles; pois eles reconheceram um dever superior ao da obediência ao soberano existente. "Se quisermos nos relacionar com a França, disse Burke, se tentarmos lidar com isso ou pensar em qualquer projeto relacionado a ele, é impossível querermos dizer isso à França geográfica; nós necessariamente precisamos nos dirigir ao país moral e político... A verdade é que a França está fora de si: a França moral está separada da geográfica. O senhor da casa foi expulso e os ladrões tomaram posse dela. Se procurarmos as pessoas corporativas da França, existindo como uma corporação aos olhos do direito público (por povo corporativo, quero dizer, que ele é livre para deliberar e decidir, e que ele tem a capacidade de tratar e concluir), eles estão no Flandres e na Alemanha, na Suíça, Espanha, Itália e Inglaterra. Eles são todos príncipes de sangue, são todas as ordens do Estado, todos os parlamentos do reino... tenho certeza que se metade daqueles que correspondem a esta descrição forem expulsos deste país, dificilmente haveria alguma coisa que eu poderia chamar de povo da Inglaterra”. (Remarks on the policy of the allies, works, v. 26, 29, 30)  Rousseau delineia quase a mesma distinção entre o país ao qual pertencemos por acaso, e aquele que nos impõe as funções políticas do Estado. Em Emilio ele tem uma frase cujo significado não é fácil de dar uma tradução: "Qui n'a pas une patrie a du moins um paga." E em seu pequeno livro sobre Economia Política, ele escreve: "Como os homens amariam o seu país se eles não fosse nada mais do que é para os estrangeiros, e só fornecessem aquilo que não podem recusar a ninguém?" Da mesma forma ele diz um pouco depois: "La patrie ne peut subsister sans la liberté." (a pátria não pode subsistir sem a liberdade) 
                   A nacionalidade formada pelo Estado é, portanto, a única para a qual temos deveres políticos, já que é a única que tem direitos políticos. Os suíços são etnologicamente, como os franceses, italianos ou alemães, mas nenhuma nacionalidade possui a menor reinvindicação sobre eles, exceto a nacionalidade puramente política da Suíça. O estado da Toscana ou o estado napolitano formaram uma nacionalidade, mas os cidadãos de Florença e Nápoles não têm comunidade política uns com os outros. Existem outros estados que não conseguiram absorver as diferentes raças em uma nacionalidade política, nem na separação de um distrito particular de uma grande nação. A Áustria e o México são exemplos de um lado, e Parma e Baden do outro. O progresso da civilização tem muito pouco que ver com este último tipo de Estado. A fim de manter sua integridade, eles devem se unir através de confederações ou alianças familiares as maiores potências e, assim, perder um pouco de sua independência. Sua tendência é isolar e encerrar seus habitantes, estreitar o horizonte de suas visões e encolher, até certo ponto, as dimensões de suas ideias. A opinião pública não pode manter sua liberdade e pureza em dimensões tão pequenas, e as questões que surgem de comunidades mais extensas se contraírem a um território menor. Em uma população pequena e homogênea, dificilmente há espaço para uma classificação natural de sociedade ou para grupos de interesses internos que colocam limites ao poder soberano. O governo e os sujeitos lutam com armas emprestadas. Os recursos de um e as aspirações do outro são derivados de alguma fonte externa, e as consequências são que, o país se torna o instrumento e cenário de conflitos em que ele não tem interesse. Esses estados, como as minúsculas comunidades da Idade Média, servem a um propósito ao constituírem distritos e garantias de autogoverno nos Estados maiores, mas são impedimentos para o progresso da sociedade, que depende da mistura de raças sob o mesmo governo.  A vaidade e o perigo das reinvindicações nacionais que não estão fundadas sobre uma tradição política, mas apenas na raça, aparecem no México. Lá as raças são divididas pelo sangue, sem ser agrupados em diferentes regiões. Portanto, não é possível uni-los ou transformá-los nos elementos de um Estado organizado. Eles são fluidos, disformes e desconectados, e não podem ser transformados para incluí-los na base das instituições políticas. Como eles não podem ser usados ​​pelo Estado, nem podem ser reconhecidos por ele; e suas qualidades peculiares, capacidades, paixões e vínculos não valem nada e, portanto, não recebem nenhuma consideração. Eles são necessariamente ignorados e, portanto, perpetuamente ultrajados. Desta dificuldade de raças com pretensões políticas, mas sem posição política, o mundo oriental refugiou-se através da instituição das castas. Onde há apenas duas raças, o recurso à escravidão permanece; mas quando diferentes raças habitam os diferentes territórios de um império composto de vários estados menores, é, dentre todas as combinações possíveis, a mais favorável para o estabelecimento de um sistema altamente desenvolvido de liberdade. Na Áustria existem duas circunstâncias que acrescentam dificuldades ao problema, mas também aumentam sua importância. As diferentes nacionalidades estão em graus muito diferentes de desenvolvimento e não há uma única nação que não esteja tão disposta a sobrecarregar ou absorver as outras. Estas são as condições necessárias para o mais elevado grau de organização que um governo é capaz de receber. Elas fornecem a maior variedade de recursos intelectuais; o incentivo perpétuo para o progresso, que é o resultado, não só da concorrência, mas também do espetáculo de um povo mais avançado; os mais abundantes elementos do autogoverno, combinados com a impossibilidade de o Estado governar tudo de acordo com sua vontade; e a mais completa segurança para a preservação dos costumes locais e dos direitos antigos. Em um país como este, a liberdade alcançaria seus resultados mais gloriosos, enquanto a centralização e o absolutismo seriam a sua destruição. A necessidade de admitir demandas nacionais torna o problema que tem que enfrentar o governo austríaco mais complexo do que o que já está resolvido na Inglaterra O sistema parlamentar falha em cumpri-los, pois pressupõe a unidade do povo. Por isso, nos países em que diferentes raças vivem juntas, o sistema parlamentar não satisfez seus desejos e é considerado uma forma imperfeita de liberdade. Isto expõe mais claramente do que antes as diferenças que ele não reconhece, e assim continua o trabalho do velho absolutismo, e surge como uma nova fase de centralização. Nesses países, portanto, o poder do Parlamento imperial tem que ser limitado com tanto cuidado como o poder da coroa, e muitas de suas funções devem ser transferidas para dietas provinciais e uma série decrescente de autoridades locais.
                   A grande importância da nacionalidade no Estado consiste no fato de que ela é a base da capacidade política. O caráter de uma nação determina em grande medida a forma e a vitalidade do Estado. Certos hábitos e ideias políticas pertencem a nações específicas e variam de acordo com o curso da história nacional. Um povo que emerge da barbárie; um povo decadente pelos excessos de uma civilização luxuriosa, não possui os meios para governar a si mesma; um povo dedicado à igualdade ou a monarquia  absoluta é incapaz de produzir uma aristocracia; um povo averso à instituição da propriedade privada está sem o primeiro elemento da liberdade. Cada um destes pode ser convertido em membros eficientes de uma comunidade livre somente através do contato com uma raça superior, em cujo poder projetos futuros devem residir do Estado. Um sistema que ignora essas coisas, e que não tem apoio no caráter e na atitude do povo, não tem como administrar seus próprios negócios, mas simplesmente deverá ser obediente ao comando supremo. A negação da nacionalidade, implica, portanto, na negação da liberdade política.
                   A maior adversária dos direitos de nacionalidade é a moderna teoria da nacionalidade. Ao fazer o Estado e a nação coincidirem uma com a outra em teoria, se reduz praticamente à condição de sujeito todas as outras nacionalidades que podem existir dentro das fronteiras. Não se pode admiti-los a uma igualdade com o líder da nação que constitui o Estado, porque o Estado deixaria então de ser nacional, o que seria uma contradição do princípio da sua existência. Portanto, de acordo com o grau de humanidade e civilização que existe no corpo dominante que reivindica todos os direitos da comunidade, as raças inferiores são exterminadas, ou reduzidas à servidão; colocadas fora da lei ou deixadas em condição de dependência.
                   Se tomarmos a instituição da liberdade pelo cumprimento de deveres morais como o fim da sociedade civil, devemos concluir que aqueles estados que incluem várias nacionalidades distintas sem oprimi-las, como os impérios britânico e austríaco, são os estados substancialmente mais perfeitos. E aqueles em que nenhuma mistura de raças ocorreram são imperfeitos, e aqueles em que seus efeitos têm desaparecido estão decrépitos. Um Estado que é incapaz de satisfazer diferentes raças condena-se; um Estado que trabalha para neutralizá-las, absorvê-las ou expulsá-las, destrói sua própria vitalidade. Um Estado que não as inclui é desprovido da base principal do autogoverno. A teoria da nacionalidade, portanto, é um passo retrogrado na história. É a forma mais avançada de revolução e tem que manter o seu poder até o final do período revolucionário, cuja proximidade anuncia. Sua grande importância histórica depende de duas causas principais.
                   A primeira é uma quimera! A institucionalização a qual ele aspira é impossível. Como nunca pode ser satisfeito e esgotado, sempre continua a se impor, e impede que o governo volte a cair na condição que provocou sua ascensão. O perigo é muito ameaçador e o poder sobre a mente dos homens é grandes demais, para permitir que qualquer sistema suporte justificar a resistência da nacionalidade. Isto deve contribuir, portanto, para obter aquilo que na teoria se condena – a liberdade de nacionalidades diferentes como membros de uma comunidade soberana. Esta é uma função que nenhuma outra força poderia cumprir, já que ao mesmo tempo é um corretivo da monarquia absoluta, da democracia e do constitucionalismo, como também da centralização, que é comum a todos os três. Nem o sistema monárquico, nem o revolucionário, nem o parlamentar podem fazer isso; e todas as ideias que despertaram entusiasmo em tempos passados ​​são impotentes para este propósito, exceto a nacionalidade.
                   Segundo, a teoria nacional marca o fim da doutrina revolucionária e sua exaustação lógica. Ao proclamar a supremacia dos direitos de nacionalidade, o sistema de igualdade democrática vai além de seus próprios limites e cai em contradição consigo mesmo. Entre a fase democrática e nacional da revolução, o socialismo se interpôs, e levou as consequências do princípio a um absurdo. Mas essa fase já passou. A revolução sobreviveu a sua descendência, e produziu um resultado adicional. A nacionalidade é mais avançada do que o socialismo, porque é um sistema mais arbitrário. A teoria social se empenha em prover a existência do indivíduo, oprimido pelos terríveis encargos que a sociedade moderna sobrecarregou o trabalho. Não é apenas um desenvolvimento da noção de igualdade, mas um refúgio da verdadeira miséria e da fome.
Por mais falsa que fosse a solução, era uma exigência razoável que o homem pobre fosse salvo de destruição; e se a liberdade do Estado fosse sacrificada pela segurança do indivíduo, o objetivo mais imediato, pelo menos em teoria, teria sido alcançado. Mas a nacionalidade não aspira nem a liberdade, e nem a prosperidade, ambas são sacrificadas à necessidade imperiosa de fazer da nação o molde e a medida do Estado. Seu avanço será marcado com ruínas materiais e morais, a fim de que uma nova invenção possa prevalecer sobre as obras de Deus e os interesses da humanidade. Não há princípio de mudança, nem fase de especulação política concebível mais compreensiva, mais subversiva ou mais arbitrária do que a nacionalidade. Ela é uma rejeição da democracia, porque coloca limites ao exercício da vontade popular e a substitui por um princípio superior. E evita não só a divisão, mas a extensão do Estado, e impede o fim de uma guerra com uma conquista, e obter uma segurança em troca de paz. Logo, depois de entregar o indivíduo à vontade coletiva, o sistema revolucionário torna a vontade coletiva sujeita as condições que são independentes dela, e rejeita toda lei, apenas para ser controlado por um acidente. Portanto, embora a teoria da nacionalidade seja mais absurda e mais criminosa do que a teoria do socialismo, ela tem uma missão importante no mundo e marca o último conflito e, portanto, o fim das duas forças que são os piores inimigos da liberdade civil: a monarquia absoluta e a revolução.



  

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

O fim da universidade




Estudantes protestando no Maio de 68 em Paris

Por Roger Scruton I Trad: Erick Ferreira


        

                        As universidades existem para prover os estudantes com o conhecimento, a habilidade e a cultura que irá prepará-los para a vida, enquanto reforçam o capital intelectual do qual todos nós dependemos. Evidentemente, os dois propósitos são distintos. Um diz respeito ao crescimento do individuo, o outro, a nossa compartilhada necessidade por conhecimento. Mas eles também estão entrelaçados, de modo que o prejuízo de um dos propósitos, seja o prejuízo do outro. É isto que nós estamos vendo agora, como nossas universidades se voltam cada vez mais contra a cultura que as criou, escondendo isso dos jovens.

                        Os anos gastos na universidade pertencem aos ritos de iniciação estudados pelos antropólogos vitorianos, nos quais, aqueles que nascem dentro de uma tribo, assumem o compromisso de perpetuá-la. Se perdermos isto de vista, a mim parece que, estaremos em perigo de separar a universidade de seu objetivo moral e social, que é aquele de entregar a todos uma reserva de conhecimento e cultura que faça algum sentido.

               Este propósito tem sido central para a tradição educacional que criou a civilização ocidental. A Paideia grega considerou o cultivo da civilidade como a parte central do currículo; a prática religiosa e a educação moral permaneceram uma parte fundamental dos estudos universitários ao longo da Idade Média, e o ideal renascentista do virtuoso foi a inspiração para o despontar da studia humaniores. A universidade que emergiu do iluminismo não relaxou o reino moral, mas considerou a academia como um modo disciplinado de vida, cujas regras e procedimentos colocavam-se a parte dos negócios cotidianos. Entretanto, isto dotou aqueles negócios cotidianos com a perspectiva de longo prazo sem a qual nenhuma atividade humana teria sentido próprio. Mesmo a vida agitada de estudante nas universidades alemães, durante o século XIX – quando os duelos tornaram-se parte da cultura universitária –, estava contido em códigos uniformes de comportamento e domesticidade colegiada e dedicada a essa síntese peculiar de disciplina moral, conhecimento factual e competência cultural que os alemães conhecem como Bildung.

                        Durante o curso do século XIX, entretanto, as universidades sofreram uma rápida mudança em sua recepção publica. O declínio do modo religioso de vida, a ascensão das classes médias ávidas por status social e poder político, e as demandas pelo conhecimento e habilidades exigidas por uma economia industrial pressionou as universidades a mudar seu curriculum, o recrutamento de estudantes e professores, e sua relação com a cultura que lhe circundava. Novas universidades foram fundadas na América e Britânia, uma delas — A University College London, datada de 1826 — com um currículo explicitamente secular, designada para produzir mentes científicas que varreriam para longe as teias teológicas nas quais todas as questões universitárias haviam sido, anteriormente, envolvidas.
                        
                           Apesar destas mudanças, entretanto, que forçaram as instituições educacionais à uma nova consciência de sua missão, a universidade conservava seu status como uma guardiã da alta cultura. Ela era um lugar onde o pensamento especulativo, a investigação crítica, e o estudo de livros importantes e a linguagem eram mantidas em uma atmosfera de confinamento estudioso. Quando o Cardeal Newman escreveu The Idea of a University em 1852, ele foi largamente motivado pela defesa da velha concepção da universidade, como um lugar separado, um recinto quase monástico, oposto a mentalidade utilitária da nova sociedade industrial. Para Newman, uma universidade existe para moldar o caráter daqueles que a ela acorrem; imergindo alunos em um ambiente colegial, e imprimindo neles um ideal de mente instruída, transformaria meros seres humanos em cavalheiros.

                        Isso, segundo Newman, é a verdadeira função social da universidade. Dentro dos muros da academia, o adolescente recebe uma visão dos fins da vida; e ele tira da universidade a única coisa que o mundo não lhe daria, que é uma concepção de valor intrínseco. E é por isso que a universidade é tão importante na era do comércio e da indústria, quando a tentação utilitária nos assalta de todos os lados, e quando corremos o perigo de tornar cada propósito, um fato material— em outras palavras, como Newman o viu, em perigo de permitir o meio de substituir os fins.

                        Muito mudou desde os dias de Newman. Sugerir que as universidades se comprometam em produzir cavalheiros é mais do que ridículo em uma época em que a maioria dos estudantes são mulheres. A universidade ideal de Newman foi o modelo das atuais universidades de Oxford, Cambridge, e Trinity College, e Dublin, que na época admitia somente rapazes, e não permitia a seus acadêmicos residentes se casarem, e eram mantidas como instituições quase religiosas dentro do rebanho da Igreja Anglicana. Seus alunos de graduação eram recrutados em grande parte nas escolas privadas, e seu currículo era solidamente baseado em latim, grego, teologia e matemática. A vida doméstica deles girava em torno do colégio, onde professores [dons] e universitários tinham seus quartos, onde jantavam juntos todas as noites, e vestiam suas vestes acadêmicas.

                        Somente uma pequena parcela daqueles que frequentavam as velhas universidades britânicas nos tempos de Newman considerava o estudo como o verdadeiro proposito de ser “superior” no alma mater. Alguns estavam lá para remar ou jogar rugby; outros estavam ganhando tempo antes de herdarem um título; alguns estavam a caminho do serviço militar, e ao mesmo tempo, estavam se amotinando com seus colegas. Quase todos eram membros de uma elite social que havia atingido essa maneira única de se perpetuar, revestindo seu poder com um verniz de alta cultura. E neste ambiente protegido e belo, você também poderia levar a cultura a sério. Com dinheiro no banco e tempo em suas mãos, não foi tão difícil virar as costas para os valores utilitários.

                        A universidade de hoje difere daquela do cardeal Newman em quase todos os aspectos. Ela recruta de todas as classes da sociedade, é aberta igualmente aos homens e às mulheres, e é frequentemente financiada e provida pelo estado. Pouco ou nada resta da vida doméstica equilibrada que moldou a alma de Newman, e o currículo não se centra mais em assuntos sublimes e sem propósito como o grego antigo, em que pairava a visão fascinante de uma vida além do comércio, mas sobre as ciências, disciplinas vocacionais, e os agora onipresentes estudos de negócios”, através dos quais os estudantes, supostamente, aprendem os caminhos do mundo.

                        Além disso, as universidades se expandiram para oferecer seus serviços a uma proporção cada vez maior da população e para absorver uma quantidade cada vez maior do orçamento nacional. No estado de Massachusetts, o ensino universitário tem receita maior do qualquer outro setor. Há pelo menos uma universidade em todas as principais cidades britânicas ou americanas, e as universidades estaduais americanas podem ter, ao mesmo tempo, mais de 50.000 estudantes. A educação superior é oferecida como um direito a todos os que passam pelo bacharelado francês ou pelo Feststellungsprüfung alemão, e os políticos europeus falam muitas vezes como se o trabalho da reforma educacional não estivesse completo até que todas as crianças pudessem, no devido tempo, se formar. A universidade não está mais no negócio de criar uma elite social, mas no ramo oposto de garantir que as elites sejam uma coisa do passado.

                        Sob o pretexto de fornecer um "propósito além do propósito", seus críticos poderiam dizer que a universidade preconizada por Newman foi projetada para proteger os privilégios de uma classe alta existente e colocar obstáculos ante o avanço de seus concorrentes. Ela transmitia habilidades fúteis, que eram apreciadas justamente por sua futilidade, já que isso as transformava em um símbolo de adesão que poucos poderiam pagar. E longe de avançar no fundo do conhecimento, ela existia para salvaguardar os mitos sagrados: colocava um muro protetor de encantamento em torno da religião, dos valores sociais e da alta cultura do passado, e fingia que as habilidades recônditas necessárias para desfrutar deste encantamento – o latim e o grego, por exemplo – eram as formas mais elevadas de conhecimento. Em suma, a universidade newmanita foi um instrumento para a perpetuação de uma aula de lazer. A cultura que transmitia não era propriedade de toda a comunidade, mas apenas uma ferramenta ideológica, através da qual os poderes e privilégios da ordem existente eram dotados com sua aura de legitimidade.
                        Agora, em contraste, temos universidades dedicadas ao avanço do conhecimento, que não são meramente não-elitistas, mas anti-elitistas em sua estrutura social. Elas não fazem discriminação por motivos de religião, sexo, raça ou classe. São lugares de abertura da mente, de pesquisa e questionamento, lugares sem compromissos dogmáticos, cujo objetivo é o progresso do conhecimento através de um espírito de livre investigação. Este espírito é transmitido aos seus alunos, que têm a mais ampla escolha de currículo possível e adquirem conhecimentos que não são apenas firmemente fundamentados, mas eminentemente úteis em suas vidas futuras: administração de empresas, por exemplo, administração hoteleira ou relações internacionais. Em suma, as universidades evoluíram de clubes socialmente exclusivos, para o estudo de futilidades preciosas; para centros de treinamento socialmente inclusivos; para a propagação de habilidades necessárias. E a cultura que eles transmitem não é de uma elite privilegiada, mas de uma cultura inclusiva que qualquer um pode adquirir e desfrutar.
                        Dito isso, entretanto, é mais provável que um visitante da universidade americana de hoje seja atingido pelas variedades nativas de censura do que por qualquer ambiente de livre investigação. É verdade que os americanos vivem em uma sociedade tolerante. Mas eles também formam guardiões vigilantes, interessados ​​em detectar e extirpar os primeiros sinais de preconceito entre os jovens. E esses guardiões têm uma tendência inata a gravitar para as universidades, onde a excessiva liberdade do currículo e sua abertura para a inovação lhes proporcionam uma oportunidade de exercer suas paixões censoras. Os livros são usados ​​ou eliminados do plano de estudos devido à sua correção política; códigos de fala e serviços de aconselhamento policiam a linguagem e o pensamento de alunos e professores; os cursos são planejados para transmitir conformidade ideológica, e os estudantes são frequentemente penalizados por terem chegado a alguma conclusão herética sobre as principais questões do dia. Em áreas delicadas, como raça, sexo e a coisa misteriosa chamada gênero, a censura é abertamente dirigida não apenas aos alunos, mas também a qualquer professor, por mais imparcial e escrupuloso que exponha as conclusões erradas.
                        Naturalmente, a cultura do Ocidente continua a ser o principal objeto de estudo nos departamentos de humanidades. No entanto, o objetivo não é mais instilar essa cultura, mas repudiá-la; examiná-la por todos os modos pelos quais ela peca contra a cosmovisão igualitária. A teoria marxista da ideologia, ou alguma feminista, pós-estruturalista ou descendente foucaultiana dela, será evocada como prova da visão de que as preciosas realizações de nossa cultura devem seu status ao poder que fala através delas, e que elas são, portanto, de nenhum valor intrínseco. Dito de outra forma: o antigo currículo, que Newman viu como um fim em si mesmo, foi rebaixado a um meio. Esse antigo currículo existia, dizem-nos, a fim de manter as hierarquias e distinções, as formas de exclusão e dominação que mantinham uma elite dominante. Estudos nas humanidades são agora projetados para provar isso -- para mostrar a maneira pela qual, através de suas imagens, histórias e crenças; através de suas obras de arte, sua música e sua linguagem, a cultura do Ocidente não tem significado mais profundo do que o poder que serviu para perpetuar. Dessa maneira, toda a ideia de nossa cultura herdada como uma esfera autônoma de conhecimento moral, e que requer aprendizado, erudição e imersão para melhorar e reter, é lançada aos ventos. A universidade, em vez de transmitir cultura, existe para desconstruí-la, remover sua aura e deixar o estudante, após quatro anos de dissipação intelectual, com a visão de que tudo é permitido e nada importa.
                        Surge, portanto, a impressão de que, fora das ciências exatas, não há corpo de conhecimento recebido e mais nada a aprender, além de atitudes doutrinárias. Em The Closing of the American Mind (No Brasil, o livro recebeu o título de “O declínio da cultura ocidental”), Allan Bloom lamentou o relativismo lânguido que infectou as humanidades – a crença, compartilhada por estudantes e professores, de que não há valores universais, e que estudamos meramente por curiosidade as obras que chegaram até nós. Se permanecemos indiferentes ao desafio moral com que nos confrontam, é em grande parte porque não acreditamos mais que exista tal coisa como um verdadeiro desafio moral.
                        Embora a observação de Bloom seja verdadeira, ela não é toda a verdade. O relativismo moral abre as portas para um novo tipo de absolutismo. O currículo emergente nas humanidades é, de fato, muito mais censório, em questões cruciais, do que aquele que se esforça para substituir. Não é mais permitido acreditar que existem distinções reais e inerentes entre as pessoas. Todas as distinções são culturalmente construídas e, portanto, mutáveis. E o objetivo do currículo é desconstruí-los, substituir a distinção pela igualdade em todas as esferas em que a distinção faz parte da cultura herdada. Os estudantes devem acreditar que, em aspectos cruciais, em particular, naqueles assuntos que abordam raça, sexo, classe, papel e refinamento cultural, a civilização ocidental é apenas um dispositivo ideológico arbitrário e certamente não (como sugere sua autoimagem) um repositório de verdadeiro conhecimento moral. Além disso, eles devem aceitar que o objetivo de sua educação não é herdar essa cultura, mas questioná-la e, se possível, substituí-la por uma nova abordagem multicultural que não faça distinções entre as muitas formas de vida pelas quais os estudantes se encontram cercados.
                        Duvidar dessas doutrinas é cometer a mais profunda heresia e representar uma ameaça para a comunidade que a universidade moderna precisa. Pois a universidade moderna tenta atender aos alunos, independentemente de religião, sexo, raça ou origem cultural, e mesmo, independentemente, da capacidade. E é em grande parte uma criação do Estado e está totalmente inscrita na ideia estatista do que uma sociedade deveria ser – ou seja, uma sociedade sem distinção. Portanto, é tão dependente da crença na igualdade quanto a universidade do Cardeal Newman dependia da crença em Deus. Seu objetivo é criar um microcosmo da sociedade futura, assim como a faculdade do cardeal Newman era um microcosmo do mundo dos cavalheiros. E como nossa herança cultural é um sistema de distinções, opondo-se à igualdade em todas as esferas em que gosto, julgamento e discriminação fazem suas reivindicações, a universidade moderna não tem escolha a não ser se opor à cultura ocidental.

                        Portanto, apesar de sua aspiração inata à associação, os jovens são informados na universidade de que eles vêm do nada e não pertencem a nada: que todas as formas de associação preexistentes são nulas e sem efeito. Eles são oferecidos em um rito de passagem para o nada cultural, uma vez que esta é a única maneira de alcançar o objetivo igualitário. Eles são dados, no lugar das antigas crenças de uma civilização baseada na piedade, julgamento e distinção, as novas crenças de uma sociedade baseada na igualdade e na inclusão; dizem-lhes que o julgamento de outros estilos de vida é um crime. Se o propósito fosse meramente substituir um sistema de crença por outro, se estaria aberto ao debate racional. Mas o objetivo é substituir uma comunidade por outra.

                        Mas qual é a alternativa? Se as universidades não propagam mais a cultura que lhes foi confiada, onde mais os jovens irão buscar por ela? Alguns pensamentos em resposta a esta questão eram sugeridos por experiências que começaram para mim em 1979. Os escritos de Foucault, Deleuze, e Bourdieu começavam a causar impacto na Universidade de Londres, onde eu lecionava. Meus alunos estavam sendo informados por todos os lados que não há conhecimento nas humanidades, e que as universidades não existem para justificar a cultura como uma forma de conhecimento, mas para desmascará-la como uma forma de poder.

                        Em resposta, eu perguntei a mim mesmo, o que exatamente eu estava tentando ensinar, e porquê. Ao apresentar aos estudantes as grandes obras da filosofia, literatura, e critica que eu havia absorvido na escola e na universidade; senti que estava oferecendo a eles o quadro de referência, o estoque de especulações, os paradigmas de intuição e alusão, através dos quais poderiam entender seus mundos. Eu estava oferecendo a eles a participação em uma cultura, não como um corpo de doutrina, mas como uma conversa contínua. E isso, que eu senti, era uma forma de conhecimento real: não conhecimento de fatos e teorias, mas conhecimento do que sentir, como se relacionar e com quem pertencer. No entanto, esse corpo de conhecimento, como supus que fosse, foi agora descartado como ideologia burguesa, ou – no idioma de Foucault – como a episteme, o saber acumulado, de uma classe dominante.

                        Um dia, me chegou um convite, vindo de boca em boca, para discursar em um seminário clandestino em Praga. Eu aceitei; como resultado, fui colocado em contato com pessoas para quem a busca de conhecimento e cultura não era um luxo dispensável, mas uma necessidade. Nada mais poderia fornecer-lhes o que procuravam, que era uma rota de fuga do mundo de mentiras pelo qual eles estavam cercados. E ao discutir a herança cultural do Ocidente entre si, eles foram considerados hereges, e arriscavam-se a prisão e ao encarceramento apenas por se encontrarem como faziam. Ironicamente, talvez a maior conquista intelectual do Partido Comunista foi convencer as pessoas de que a distinção de Platão entre conhecimento e opinião é válida, e que a opinião ideológica não é meramente distinta do conhecimento, mas o inimigo do conhecimento, a doença implantada no cérebro humano que torna impossível distinguir ideias verdadeiras de falsas. Essa foi a doença espalhada pelo partido. E foi espalhada por Foucault também. Pois foi Foucault quem ensinou meus colegas a avaliar todas as ideias, todos os argumentos, todas as instituições, convenções ou tradições em termos de dominação” que mascara. A verdade e a falsidade não tinham um significado real no mundo de Foucault; tudo o que importava era poder.

                        Essas questões tem sido trazidas em acentuado relevo para os tchecos e eslovacos através do ensaio de Václav Havel O Poder dos que não tem poder (1978), convidando seus compatriotas a viver na verdade. Como poderiam fazer isso, se fossem incapazes de distinguir o verdadeiro do falso? E como eles poderiam distinguir o verdadeiro do falso sem o benefício da cultura real e do conhecimento real? Daí a busca por essas coisas se tornou urgente. E o preço dessa busca era alto - assédio, prisão, privação de direitos e privilégios comuns e uma vida à margem da sociedade. Quando algo tem um alto preço moral, somente pessoas comprometidas o buscarão. Encontrei, portanto, nos seminários clandestinos, um corpo estudantil singular – pessoas dedicadas ao conhecimento, como eu o entendia, e conscientes da facilidade e do perigo de substituir o conhecimento pela simples opinião. Além disso, eles estavam procurando por conhecimento no lugar onde é mais necessário e mais difícil de encontrar –  na filosofia, história, arte e literatura, nos lugares onde a compreensão crítica, em vez do método científico, é nosso único guia. E o que foi mais interessante para mim foi o desejo urgente entre todos os meus novos alunos de herdarem o que lhes foi entregue. Eles haviam sido criados em um mundo onde todas as formas de pertencimento, além da submissão ao partido no poder, haviam sido marginalizadas ou denunciadas como crimes. Eles entenderam instintivamente que uma herança cultural é preciosa, precisamente, porque oferece um rito de passagem para a coisa que você realmente é, e a comunidade de sentimentos que é sua.

                        Havia outra característica cativante dos seminários clandestinos, que era a escassez de seus recursos intelectuais. Acadêmicos no Ocidente são obrigados a publicar artigos e livros caso queiram avançar em suas carreiras, e desde os anos da Segunda Guerra Mundial isso levou a uma proliferação de literatura que, se nem sempre era de segunda categoria do ponto de vista intelectual, quase invariavelmente era sem mérito literário – enfadonho, entulhado de notas de rodapé, sem contar imagens ou excesso de frases rebuscadas, e tão efêmera em conteúdo quanto impossível de ignorar. O peso dessa pseudo-literatura oprime professores e estudantes nas ciências humanas, e agora é quase impossível descobrir os clássicos que estão enterrados embaixo dela.

                        Às vezes penso que o maior serviço à nossa cultura foi prestado pela pessoa que ateou fogo à Biblioteca de Alexandria, assegurando, assim, que nada sobrevivesse daquela massa de literatura, além daquelas obras consideradas tão preciosas que cada pessoa teria uma cópia em sua casa. Os comunistas prestaram um serviço parecido à vida intelectual na Tchecoeslováquia ao evitar a publicação de qualquer coisa, exceto aquelas obras consideradas tão preciosas que cada pessoa estava preparado para produzi-las em laboriosas edições samizdat. Estas seriam passadas de mão em mão e lidas com ávido interesse por pessoas a quem o conhecimento, em vez de avanço na carreira era uma meta. Como isso foi refrescante após a vida entre os periódicos acadêmicos e as notas de rodapé!

                        Claro que as circunstâncias dos seminários clandestinos eram incomuns e ninguém queria reproduzi-las. No entanto, durante os dez anos que eu trabalhei com outros para transformar esses grupos privados de leitura em uma universidade estruturada (ainda que clandestina), eu aprendi duas verdades muito importantes. A primeira é que uma herança cultural realmente é um corpo de conhecimento e não uma coleção de opiniões — conhecimento do coração humano, e visão de longo prazo de uma comunidade humana. A segunda é que esse conhecimento pode ser ensinado, e que isso não exige um vasto investimento em dinheiro, como os $ 50,000 por ano com cada estudante exigidos por uma Ivy League University. Isto requer apenas um punhado de livros que passaram no teste do tempo e são apreciados por todos os que realmente os estudam. Isto exige professores com conhecimento e estudantes entusiasmados em adquiri-lo. E requer ainda a tentaiva continua para expressar o que se aprendeu, seja nos ensaios ou no encontro face-a-face com um crítico. Todo o resto — administração, tecnologia da informação, salas de leitura, bibliotecas, recursos extracurriculares — é, em comparação a isso, um luxo insignificante.

                        Quando as instituições são incuravelmente corrompidas, como as universidades foram corrompidas sob o comunismo, devemos começar tudo outra vez, mesmo que o custo disso seja tão alto quanto foi na Europa ocupada pelos soviéticos. Para nós, o custo não é tão alto. O dom mais precioso da nossa civilização, e o que mais foi ameaçado durante o século XIX, foi a liberdade de associação. Porque esta liberdade ainda existe, e em lugar algum, além da América, o fato de que nós não podemos mais confiar nossa lata cultura às universidades é menos importante. O destino de Harvard e Yale é inevitavelmente de preocupação geral; mas também há lugares como o St. John’s College em Annapolis, ou o Hillsdale College em Michigan, onde pessoas que acreditam no velho currículo são preparadas para ensiná-lo. Há grupos privados de leitura, cursos online, associações de acadêmicos, think tanks, e séries de palestras públicas. Há instituições como o Intercollegiate Studies Institute, que oferece um serviço de resgate para estudantes desanimados pelo politicamente correto. Há revistas como essa, que servem como um foco para discussões que, afinal de contas, não precisam acontecer, especificamente, em uma universidade. Parece-me que permitimos a nós mesmos sermos intimidados na crença de que, porque as universidades tem bibliotecas, laboratórios, professores eruditos, e recursos substanciai, eles são também indispensáveis depositários do conhecimento. Nas ciências, isto é verdade. Mas isso não é mais verdade nas humanidades.

                        No entanto, o caminho a seguir não é tão claro quanto os defensores do antigo currículo gostariam que fosse. Programas de Grandes Livros, pesquisas sobre nossa herança cultural, o estudo comparativo da arte, da música e da arquitetura ocidental – todas elas são escolhas óbvias. Mas por quê? O que distingue esses programas dos cursos de música pop, cartoons e estudos de gênero que tão facilmente caminham para substituí-los? Dizer que o currículo tradicional continha conhecimento real em oposição a distrações efêmeras é implorar por uma pergunta. Porque não sabemos em quê realmente consiste o conhecimento. Sentimos isto, é claro, como meus alunos tchecos sentiram. Sentimos o chamado da cultura que é nossa e queremos dizer que, ao responder a esse chamado, estamos deixando o mundo da opinião e entrando no mundo do conhecimento. Mas por quê?

                                   As respostas até hoje são triviais – como quando – Matthew Arnold nos diz, em Culture and Anarchy, que uma alta cultura consiste no melhor que foi pensado e dito - ou então alguma versão da visão iluminista de que o conhecimento cultural envolve transcender o particular no universal, substituindo nossas lealdades limitadas e comunidades imaginárias com algum ideal cosmopolita. E é um pequeno passo dessa posição do Iluminismo para o currículo multicultural e igualitário que defende o universal humano apenas porque tudo o que distingue uma herança cultural verdadeira foi removido dela. Até chegarmos a algo melhor do que essas duas abordagens, não suspeitarei que escaparemos das garras das universidades, ou nos sentiremos confiantes o suficiente para começar de novo sem elas.



sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

O conservadorismo de Edmund Burke


Edmund Bure

                     Em Edmund Burke encontra-se a “substância filosófica” – como diz Nisbet – do conservadorismo. O autor irlandês é considerado o maior pensador conservador de todos os tempos, de modo que, falar do conservadorismo sem ler Burke, é como falar do cristianismo e ignorar a Cristo. Todavia, "conservadorismo" não é um termo da filosofia de Burke, tampouco fora um termo que o autor irlandês usou para se autodefinir, mas, é a partir de Burke que a palavra entra no vocabulário político como forma de descrever a mentalidade e conduta de homens que se colocavam em defesa da tradição e do melhor que a velha ordem -- que sucumbia nas incursões da Revolução Francesa -- nos legou. Em suas Reflexões sobre a Revolução na França, Burke, resume seu conservadorismo nos seguintes termos: “Temos verdadeiros corações de carne e sangue batendo em nosso peito. Tememos a Deus. Erguemos os olhos com veneração aos reis, com afeição aos parlamentos, com submissão aos magistrados, com reverência aos padres e com respeito à nobreza”. Obviamente, neste trecho não está todo o programa conservador apresentado por Burke, mas acredito que estas palavras bem servem para nos introduzir à doutrina deste sujeito, a quem se reconhece a paternidade do conservadorismo político. Embora, admitamos que, tecer, mesmo que breves, considerações sobre a doutrina de Burke é uma tarefa um tanto quanto ingrata, tanto pela profundidade de sua obra quanto pelo nosso limitado conhecimento dela, no entanto, é possível encontrar pontos centrais de sua tese, que podem nos direcionar numa introdução a sua doutrina.
                     Antes de Burke, o conservadorismo era reconhecido como mera expressão do temperamento humano. Foi isso, que Hugh de Cecil apresentou em seu Conservatism. Mas o que o Lord de Cecil apresentava era o que chamamos “conservadorismo primitivo”, ou simplesmente “reacionarismo”; o mesmo tipo de conservadorismo que apresenta Michael Oakeshott quando diz: “Ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, o tentado ao não tentado, o fato ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito, a felicidade presente à utópica”. Burke se distingue radicalmente destes em sua doutrina.

A mudança na visão de Burke
                     Uma interrogação muito comum preocupa a mente conservadora quando esta se vê na iminência de empreender algum tipo de mudança: “Será que a perda compensa o ganho?” Seja este um reacionário ou um conservador moderno, ambos são fortemente constrangidos por tal interrogação. E entre o certo e o duvidoso, as pessoas comuns, ficam com o primeiro. Mudar sempre implica em deixar algo para trás; e tal perda, sempre, parece nociva a um reacionário. 
                     O conservadorismo de Burke confronta esta questão emblemática de outra forma. Para ele, a mudança não só é benéfica como necessária para a própria perpetuidade do que se quer conservar. É desta forma que se processa a dinâmica social. Em outras palavras, progresso e conservadorismo não são realidades antagônicas, são antes coisas complementares. A compreensão burkiana da relação entre conservadorismo e progresso se dá pelo modo que o pensador irlandês compreendia a sociedade, ou seja, como “uma associação entre os vivos, os mortos e os que estão por nascer” (1997, p. 116) De modo, que passado, presente, e futuro, sempre, devem andar juntos sem se deterem ou se desapegarem mesmo seguindo cursos diferentes.

A religião como fundamento da sociedade

                     Um outro princípio que se apresenta na obra de Burke versa sobre a necessidade da religião para a vida e a ordem social. Escreve ele: “A religião é a base da sociedade civil e a fonte de todo o bem e de toda a felicidade” (BURKE, 1997, p. 112). Por certo, desde os tempos clássicos, os maiores pensadores da humanidade confirmam esta afirmação de Burke, e até entre os inimigos da religião, encontramos um apoio a esta tese.
                     Platão assim dizia em um tempo muito remoto: “A religião tem sido considerada por todos os homens e em todos os tempos como o fundamento indestrutível das sociedades humanas” (Platão, Leis, Livro X) E tal afirmação é comum a todos os expoentes do pensamento conservador.

A inviolabilidade da propriedade privada

                     Em Burke, apresenta-se uma defesa enfática da inviolabilidade da propriedade privada, que é uma crença comum a todos os conservadores. A defesa da inviolabilidade do direito à propriedade privada e sua transmissão através de direito hereditário, é um dos pontos que distanciam radicalmente o conservadorismo de seus antípodas: o socialismo e o libertarianismo. “O poder de perpetuar nossa propriedade em nossas famílias é um de seus elementos mais valiosos e interessantes, que tende, sobretudo, à perpetuação da nossa sociedade.” Por certo, há um desequilíbrio social incalculável onde quer que se tente abolir o direito a propriedade privada. Nunca se viu região onde isso acontecesse, sem junto com ele, se procederem também, tragédias incomensuráveis. Deste modo, observamos que a pretensão de abolir o direito a propriedade privada é uma das características de todos os tiranos.

A Monarquia

                     Uma das características fundamentais do conservadorismo britânico é a profunda desconfiança à democracia. A este respeito, escreveu Burke: “Uma perfeita democracia é a coisa mais vergonhosa do mundo” (BURKE, 1997, p. 114) Esta desconfiança parece ser um dos aspectos mais comuns do conservadorismo, e um dos motivos para tal desconfiança, observa o autor irlandês, é que “a vontade dos muitos e seus interesses diferem bastante e frequentemente; e a diferença será enorme quando fizerem esta escolha”. Burke ainda observa que “nada existe entre o despotismo de um monarca e o despotismo da multidão” (Ibidem, p. 132) e isto porque ele acreditava que “em uma democracia, a maioria dos cidadãos é capaz de exercer, sobre a minoria, a mais cruel das opressões (Ibidem, p. 135) Uma corrupção da ordem política que viria a receber em Stuart Mill e Tocqueville o nome de “Ditadura da Maioria” (cf. A democracia na América, Livro I: Leis e Costumes, Livro II: Sentimentos e opiniões; Considerações sobre o governo representativo, I)

A desigualdade natural entre os homens

                     Uma das primeiras observações de Burke sobre a sociedade, veio a ser confirmada nos tempos presente através de um número inaudito de provas. “Em todas as sociedades compostas de diferentes classes de cidadãos é necessário que algumas delas se sobreponham as outras”. E um dos exemplos que me utilizarei para provar este detalhe, retiro de uma tese antropológica que vê no instinto competitivo do homem a resposta para tal desigualdade.
                     Por certo, o homem não buscou em primeiro lugar dominar e acumular, e em torno disso desenvolver sua personalidade e organização social, buscou, antes de tudo, divertir-se e brincar! E esta tese que se encontra na obra de Jan Huizinga, intitulada homo ludens. Segundo Huizinga, a inclinação por diversão no homem, é natural e o acompanhará em cada momento de sua existência e terá efeitos sociais mais dinâmicos do que a atividade laboral. Isto porque o prazer ainda possui certa primazia sobre o dever. E neste sentido ouso dizer que é mais fácil as fábricas e os escritórios e fábricas serem abandonados do que os cassinos e os estádios de futebol. Os primeiros se ocupam por dever, o segundo por prazer. O desejo de divertir-se é um traço comum e dominante da natureza humana e até mais estimulante que qualquer outro instinto. Por isso, muitos governantes, utilizaram as competições como poderosa válvula de escape nos tempos de revolta e insatisfação popular. Poucas coisas pareciam entreter tanto o povo e acalmar seus ânimos quanto as competições e os jogos. E esta prática se perpetua na história, e não há governante que não faça uso delas. 
                      O jogo, portanto, pode ter exercido papel primordial no desenvolvimento da civilização, e o instinto que o move, a competitividade permanece inalterável ao longo da história. É do competivismo lúdico que se originam as outras formas de competitividades sociais, como a econômica. Por esta razão tão claramente exposta na natureza humana, a utopia de uma sociedade igualitária e sem classes sempre será uma ilusão. Nenhum homem se conformará em estar disposto em igualdade absoluta com os demais. O instinto competitivo arraigado em seu ser, sempre irá lhe impelir a superar seus semelhantes em algo. E esta competitividade sempre irá colocar os homens em posições desiguais em qualquer área, gerando sempre entre eles uma desigualdade de talentos e posições sociais. As próprias experiências revolucionarias na História provam esta tese. Onde quer se instaurou um regime revolucionário, viu-se ascenderem classes ainda mais opressoras ao poder e uma desigualdade amis perniciosa que a anterior. Isto porque a desigualdade não é um dado alterável da vida social, mas um aspecto imodificável da ordem.

O princípio da legitima defesa

                     Burke, reconhece o direito a autodefesa como “a primeira lei da natureza” (BURKE, 1997, p. 89) E este direito à defesa se deve ao fato de todo conservador estar consciente do perigo a que todos estão vulneráveis, por conta da inerente maldade humana. Por isso, ele acredita que é legitimo o aparato coercitivo do Estado na missão de conter o ímpeto dos maus. Neste sentido, compreende-se certos direitos e instituições legais para garantir a segurança de todos, como: a pena de morte, o porte de armas para os cidadãos, e leis mais severas para se inibir a criminalidade.
                     “A sociedade exige não apenas que as paixões dos indivíduos sejam dominadas, mas também que, mesmo na massa e no conjunto, bem como nos indivíduos, as inclinações dos homens sejam frequentemente contrariadas, sua vontade controlada e suas paixões reprimidas” (Ibidem, p. 89), dizia Burke. Uma posição que difere radicalmente da defendida pelos revolucionários, que se recusam a ver a maldade nas pessoas, mas insistem em proclamar a maldade das instituições e na própria ordem social. 





REPENSANDO A FAMIGERADA POLARIZAÇÃO

  Tirinha de Caran D'Arche T enho fartas razões para crer que "a unidade em questão política é uma exceção. A polarização é a regra...